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conta comigo:

lá ia eu, noite adentro naquele ônibus sob um céu sem estrelas, ao lado de uma desconhecida e seu ronco. em mim, a tentativa de juntar nomes, fatos, datas e canções em meu quebra-cabeça particular. ia com uma espécie de aperto gelado entre a barriga e o peito. difícil descrever minha angústia sem usar algum clichê... meu domingo ia tranquilo quando recebi a notícia que me arrasaria. 

em minhas memórias eu era outro, diferente do que sou: era um menino de 13 anos. no agora sou um homem de quase 40 que anda triste com o que o rodeia. vivo em um país à beira do colapso com cidadãos furiosos, engendrados em uma teia de ódio & oportunismos & meias verdades. mas quem era eu dentro daquele ônibus? o menino de 1990/91 ou o homem de agora? tenho duas filhas, faço canções doídas e as canto para poucos. dentro de mim, em minha poltrona, através da janela, eu era a soma do que fui, do que sou e do meu entorno nos dois períodos. 

em uma outra noite fria, isso há 25 anos, assisti pela primeira vez "conta comigo" (stand by me, rob reiner, 1986). aquele filme, que emocionou o menino que eu era, me deixou aos frangalhos semanas após essa viagem de despedida. pois assim como naquela história, tive também um amigo aos 12 anos, alguém que me acompanharia pela vida. com ele dividi alegrias, tristezas, conquistas e paixões ao longo de mais de duas décadas. como no cinema, esse meu companheiro de aventuras também morreu de forma estúpida.

no fim do último verão, 13 de março, no domingo em que muitos brasileiros foram às ruas (isso antes dos desdobramentos trágicos que agora vivemos), lá ia eu tentando organizar as notícias em minha cabeça. naquela noite estranhamente gelada...

estamos quase na primavera e logo se completarão 6 meses da sua ida. desde então penso em meu amigo todos os dias. nele, em sua companheira e seus filhos. natural que inclua nesse pacote "minhas meninas" e que compare as realidades de hoje e da época em que lhe conheci. são brasis parecidos. como se não tivesse havido, ao longo deste tempo, momentos distintos, com perspectivas melhores. 


nos primeiros anos da década de 1990 vivíamos num país desesperançado. talvez alguns não lembrem. é possível que outros não saibam. mas o plano collor e o que ele desencadeou (você assistiu terra estrangeira?) foi ainda pior do que o temos agora. eu e minha família, vindos do pará pouco antes, não fomos exceção. havia gente, claro, em piores condições. durante dois invernos rigorosos, só tivemos agasalhos o suficiente por conta da ajuda de alguns. não tínhamos fogão à lenha (algo quase imprescindível em residências do interior de sc), muito menos máquina de lavar roupa (pense nas mãos da minha mãe em sua dupla jornada). não passamos fome, mas nenhum de nós engordou naqueles anos... a vida era difícil e chapecó era uma cidade dura pro garoto que fui: magro, feminino/delicado e comunicativo. quando digo que durante uns dois meses apanhei praticamente todos os dias, entenda, não digo metaforicamente.

éramos muito jovens, não entendíamos direito... hoje, olhando pra trás, entendo que vivemos coisas desproporcionalmente cruéis.

alisson era tímido e um ano mais novo que eu. poderia ser descrito como minha antítese. personalidades complementares?! provavelmente. mas isso importa menos que entender que vivemos juntos um momento definidor. em comum, dentre outras coisas, tínhamos o amor pela música (que nos servia de passagem para dimensões menos melancólicas que a realidade) e pelo futebol (algo muito daquela idade, naquele lugar), o alcoolismo (destruindo pessoas próximas e as relações dentro das nossas casas) e a falta de dinheiro (nos fazendo trabalhar cedo). 


para além dos dois anos que vivi ali, foi no período em que me preparava para vir para florianópolis e nos meses iniciais por cá, que nossos laços se transformaram. nossas famílias (ou o que restava delas), muito por conta dessa amizade, se aproximaram e aquele carinho, mesmo após o distanciamento natural da vida, continuou. ao longo de dez anos nossa comunicação ainda que por cartas permitiu mantermos-nos próximos. tenho comigo a maior parte destes registros, mas não a coragem para as reler. não agora. o ponto é que torcemos um pelo outro e dividimos nossas dores e perdas, etc. este "etc" importa muito em meu relato pois ele inclui um dos nossos combustíveis: música. ele, orgulhoso, me enviou uma fita da banda repolho, e eu lhe comprei a edição da revista general que trazia uma coletânea com radiohead, blur, breeders e outros. "xerocava" matérias sobre discos e lhe enviava. ele, às vezes, quando queria algo que não chegava à sua cidade, escondia dinheiro dentro da caixinha de uma fita (para que ninguém dos correios lhe "surrupiasse") e me pedia para lhe comprar/enviar. 

quem hoje tem acesso a tudo através de um clique, não imagina o que era esperar meses ou anos para ouvir, após muitas elucubrações, o som daquele nome que se havia ouvido falar ou lido a respeito. foi assim com doors, depeche mode, cure, smiths, jesus & mary chain, pearl jam, prefab sprout, fito paezmarisa monte, chico science & nação zumbi, chico buarque, pato fu e outros.

se foi triste para mim esse retorno, dentro daquele ônibus, nada se compara a dor de um pai que perdeu o filho, de uma mulher encarando seu amor sem vida, da irmã que teve que ir escolher o caixão ou das crianças se despedindo do pai. eu estava lá e jamais esquecerei o que vi. 

após sua ida, vivi um período em que estive bastante sensível. foi difícil pra mim. talvez tenha sido necessário, não importa. importa que hoje, a despeito do momento conturbado, tenho mais esperança do que tinha em março, por exemplo. 

mesmo distantes, mantivemos os laços ao longo de 26 anos. nos vimos muitas vezes, mas não tanto quanto deveríamos, eu sei. sei também que devo muito a essa amizade e em sua homenagem tenho muito o que criar. não para ele, mas pelo que acreditávamos, pelo que nos tornamos. tivemos filhos e são eles que nos fazem seguir e querer construir uma realidade melhor do que a nossa. que eles possam, aos 12 anos ou não, ter amizades como a que tivemos... que eles possam, como eu, ter alguém com quem contar.

(ironicamente, fiz a foto lá de cima pouco depois do enterro de meu amigo, vítima de uma dengue hemorrágica mal diagnosticada) 

Comentários

Cristiano disse…
fazer disso tudo fortaleza e criatividade. deve doer pecas, imagino. por isso, conforme deixaste claro já no texto, farás dos próximos... dias melhores. um abraço.

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