sábado, 21 de janeiro de 2012

sobre alguém que partiu:

tarde iluminada e quente e nós a bordo de um barco. o mar, talvez por conta do sol, talvez por outra razão, parecia de esmeralda. de um transatlântico, enorme, imponente, do qual nos aproximamos, recebemos alguns acenos. mais a frente, nem tão longe da costa, nem tão perto, paramos. em silêncio, suas cinzas são atiradas naquele verde profundo em que ele tantas vezes pescou. nós, entre lágrimas emocionadas, cantamos sua música preferida.

dizem que quem não teve um pai presente acaba por escolher pra si mais de uma figura paterna. este é o meu caso. isso me ocorreu já há algum (pouco) tempo, mas por acaso, concluí, como quem encontra uns trocados no bolso de uma calça guardada, que isso era bom. ainda assim, por um outro lado, ter mais figuras paternas do que se comumente teria é também sofrer por perder mais de um pai. provavelmente.

nunca o chamei de pai, nem de brincadeira. a questão não é essa, é outra, que em algum momento ele poderia ter sido e foi algo do tipo. alguém necessário, que serviu de guia quando a orientação era fundamental. dou uma neta a esse homem. mas agora, que ela está por vir (deve nascer pouco depois do aniversário de sua partida, 31 de maio) ele já não está com a gente. a vida é irônica, é linda e é triste triste: este bebê, tão aguardado, chega logo quando quem tanto o desejou não lhe pode pegar nos braços. 

hoje, na barriga da mãe, ela e ele, em uma pequena caixa, estiveram no mesmo barco, flutuando sobre o verde esmeralda.