segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

que clube da luta, que nada:

verão, janeiro, florianópolis, uma festa! legal. legal, nada. só mais uma... certo?! não. esse encontro, celebração, reunirá alguns daqueles que há 10 anos ajudaram a reconstruir o cenário de música autoral nesta cidade. reconstruir?! sim. aqui, de modo geral, a memória é escassa. você, que tem menos de 25 anos, sabe das bandas/artistas desse povoado? ou do que passou pelos ouvidos, rádios e palcos da capital de santa catarina ao longo dos últimos anos?! não. certo?! eu também não sabia. 

por isso, penso, é importante lembrar: na década de 1980 tivemos bandas e público em sintonia e nos anos 1990, depois de um hiato inicial, houve uma outra cena. mas o entusiasmo geral caiu novamente e, durante a primeira metade da década passada, tirando poucas exceções, houve certa "pasmaceira" e dificuldades para os que queriam produzir música autoral aqui. todavia, através da criação de um coletivo chamado CLUBE DA LUTA, acontece novo momento de potência (de encontro, de alegria e de atrito - e sem atrito não há fogo!). essa gente, bandas como tijuquera, samambaia sound club, aerocirco, andrey & a babba, da caverna, coletivo operante, maltines e outras, criaram uma série de festas/shows e, além ainda, foram responsáveis pelo nascimento de uma importante casa para a produção de música autoral daqui (ainda hoje): a célula

voltemos, então, ao começo: verão, janeiro, sexta-feira, dia 08, tem festa, encontro, comemoração. celebração de 10 anos do nascimento do clube da luta, certo?! não. mas poderia ser. claro. essa noite, no fim, é de reunião de duas bandas já extintas e de encontro com uma terceira, que se reconstruiu... (ambas foram protagonistas daquele momento)

o AEROCIRCO lançou 4 álbuns de estúdio, mais 1 ao vivo, rodou o país e conquistou seu público através da força das canções do seu vocalista, fábio della. o quarteto encerrou suas atividades já há alguns anos, mas estará novamente reunido para celebrar o passado e o presente (afinal, seus ex-membros continuam produzindo).

a SAMAMBAIA SOUND CLUB colocou 2 discos e 1 ep de remixes na rua, viajou, tocou para diferentes públicos, tanto em sc, quanto em porto alegre, rio de janeiro, são paulo e curitiba. foi amada e odiada por muitos e se desdobrou em outros trabalhos (seu vocalista - sim, eu - fez discos só e acompanhado, enquanto parte dos seus remanescentes criou a five boys). 

a BABBA, por sua vez, embora continue tendo como seu vocalista o poeta andrey mesmo, já não assina como antes, ANDREY & A BABA DO DRAGÃO DE KOMODO. após 2 discos de estúdio, muitos shows e uma mudança de direção musical que redefiniu seu som, o grupo segue firme fazendo belezas com pedradas.

MAS E A FESTA? O EVENTO, O QUE TEM A VER COM O CLUBE DA LUTA?! nada. tudo. sim, se aquele coletivo nasceu através de vontades diferentes, de dificuldades distintas, de impasses e contradições, afinal, se nem seus fundadores chegaram a uma síntese do que queriam ou do que foram, será assim esse encontro. comemoração, sim, mas com indignação contra o que ainda precisa ser combatido: o provincianismo que sufoca arte, artistas e públicos daqui. quem somos, que cidade queremos?! quem não entendeu que o clube era (também) sobre essas perguntas, talvez tenha a chance de entender agora. o clube da luta não existe mais. nem aquela cidade e nem seus artistas. tudo mudou. mas tudo continua muito parecido. o que fazer, então? o que for preciso, o que for possível. 


será uma festa, afinal? sim, mas será mais que isso, é só querer... que venham outros clubes, outras cenas, outros artistas, outras contradições e outras verdades. 





sábado, 2 de janeiro de 2016

miró & política & 2015, retrospectiva pessoal (dois):

tendo sido um dos mediadores da exposição joan miró - a força da matéria, acabei por criar uma espécie de narrativa baseada em algumas obras do artista. esse meu recorte, embora pessoal, partiu de leituras prévias não apenas do universo das artes e da crítica, mas também da teoria literária e, principalmente, de livros sobre política (e/ou políticos). sim, e por que não?! além, ainda, construí minha fala através de um olhar que cruzava o tempo do artista com o da exposição. um olhar que tem em seu cerne as notícias do mundo, do país e da cidade em que vivi/vivemos neste melancólico (& tenso) 2015 (sim, este que findou há pouco). 

é pertinente pensar que essa foi a primeira grande exposição de um nome de peso da arte moderna em florianópolis, uma capital relativamente pequena e provinciana. e, note, não digo isso como crítica, mas aceitando um fato e, assim, parabenizando as pessoas por trás da iniciativa. aproveito para agradecer a equipe com que trabalhei, dos seguranças aos funcionários do masc, e cito dois dos meus companheiros de mediação (zaina debouch e henrique vasconcelos), afinal, foi com eles que consegui algumas informações importantes e deles que, muito espertamente, roubei algumas ideias. 


o ponto é que não pretendo transcrever aquele meu roteiro, pois sei que boa parte de sua vitalidade vinha de uma dinâmica que conciliava oralidade com improviso (como no jazz, que é construído na hora, mas que existe a partir de um tema previamente definido e de estudo e domínio técnico) e com algo mais pessoal: o toque. sim, o toque do qual, aliás, não me omiti: toquei as pessoas que acompanhavam minha "narrativa". era importante para mim, por entender que a arte de miró, e a arte de miró em 2015, no brasil, em sc e em florianópolis, deveria vir acompanhada deste tipo de manifestação física. tudo muito pessoal, muito vivo. como a oralidade, como a arte do artista. 


minhas leituras nos últimos três anos variaram, ainda assim, preciso dizer que de 2013 para cá li alguns livros que me ajudaram a enxergar o meu entorno de maneira diferente. destaco alguns: carlos marighella - o guerrilheiro que incendiou o mundo, os três tomos da biografia que lira neto escreveu sobre getúlio vargas, a reinauguração da cultura sobre joan miró (texto de valter hugo mãe incluído no catalogo da exposição), sem logo - a tirania das marcas em um planeta vendido (que apesar de já um tanto "defasada" ainda apresenta um perspectiva bem pertinente sobre o mundo que temos hoje), os sentidos do lulismo e cutucando onças com varas curtas (ambos de andré singer), como funciona a música e outros, inclusive um sobre o qual me debruço neste janeiro: brado retumbante (1 & 2), de paulo markun


talvez algum desavisado pense, "mas o que diabos suas leituras tem a ver com miró"? eu diria: TUDO. ao cruzar estas informações, consigo encontrar pontos em comum entre o tempo do artista e o nosso. miró, como o flâneur de baudelaire, não quer ficar na torre de marfim. nem quer ser o artista alheio à vida e seus desdobramentos mundanos. ele viveu em um tempo difícil, em que o capitalismo vivia suas crises e suas guerras. período não muito diferente deste. aquele homem teve que deixar mulher e filha em um país em guerra civil (pense em um país divido, em um momento de crise(s), pense em interesses maiores e em forças transnacionais agindo). hoje há em sc, inclusive, imigrantes da guerra que acontece no outro lado do mundo, na síria. esse sujeito viveu o tempo do fascismo e do nazismo (que alguns "desenterram", e não apenas aqui, nesse cu do mundo, mas também em "países desenvolvidos e pensantes"). sim, joan miró viu seu nome consolidar-se durante a guerra fria, de um lado o cruel comunismo assassinando milhares, do outro, o capitalismo, igualmente cruel: esmagando ideias/pessoas e assassinando (igualmente, não nos enganemos) outros tantos. se hoje já não há mais comunismo como força política antagônica, há um capitalismo cada vez mais opressor. num mundo em que as grandes corporações são máquinas que controlam a política e em que as riquezas se concentram cada vez mais na mão de pouquíssimos (um cego ou alguém sem empatia negaria, talvez, algo que nem os porta-vozes do liberalismo negam). este sujeito viu seu país ser submetido a uma ditadura. enquanto aqui, no brazil há quem queira a supressão dos direitos democráticos e a volta dos militares ao poder... sim, parece insano e é. 


se o momento é político, não me furtei. não nos furtemos! de todo modo, não pense que omiti questões técnicas ou que deixei de citar fatos sobre sua biografia. nem que calei sobre como ele se opôs a certo academicismo vazio (procurei, sim, encontrar alguns dos seus porquês). que fique claro, usei destas e de outras informações para construir minha fala. trouxe o artista para perto do nosso cotidiano. miró criou sobre o piche? falemos da estrada por onde passa o automóvel (símbolo da modernidade no início do século XX); falemos do petróleo que está no âmago da terra e sendo assim pode ser visto como primitivo/puro (algo que interessa seu trabalho); pensemos além, que esse material, "tão puro", alimenta (contraditoriamente) a máquina que nos oprime, que nos divide, que gera muito dinheiro, que financia campanhas, que derruba governos, que transforma cidades em campos de guerra.


se ele usou, ao criar algumas das suas esculturas, objetos aleatórios, alguns descartados, por que não falar do consumo nos nossos dias?! por que não citar nossa passividade diante dessa nova religião?! sim, o capitalismo (não sou eu que estou dizendo). por que não pensar nas mudanças climáticas que vivemos hoje? ou no desastre provocado pela samarco/vale?! sim, coloquei essas e outras questões em minha mediação. é tudo força da matéria


a potência da obra de um artista está no fato dela poder ser lida de maneiras diferentes (por vezes, até, contraditórias). daí, meu link, agora e não durante a exposição, com a política real (realpolitik?!), não apenas daqui, do brasil, mas do mundo, afinal a desumanização ou coisificação das pessoas através de políticas de austeridade econômica que privilegiam o "mercado" em detrimento das gentes, é algo (ao menos teoricamente) incompatível com a arte. nessa linha, chegar à câmara e ao senado brasileiros e algumas de suas ideias retrógradas, é um passo – se pensarmos que houve um tempo em que o iluminismo guiou o pensamento e que essa concepção nos legou inúmeros problemas e que miró inicia sua caminhada justamente quando artistas, teóricos e cientista tentam construir um novo modo de enxergar o mundo, é possível entender essa minha associação. 



ao dizer que "quando um artista se expressa num contexto em que a liberdade é difícil, (ele) deve converter cada uma das suas obras em uma negação das negações, numa libertação de todas as opressões, de todos os preconceitos e de todos os falsos valores estabelecidos", miró não estaria falando apenas sobre o "seu tempo", sua fala & sua arte não são estanques, elas são também sobre hoje, sobre instituições fragilizadas, sobre falta de bom senso, sobre aquilo que nos impossibilita de entender nosso entorno criticamente. 

é preciso estar atento e se colocar contra os lugares comuns. atacar o gosto médio pode ser uma saída divertida, como quando miró pintou por sobre uma tela impressionista. ou como quando janga, aqui mesmo na nossa desterro, em 2015, escreveu sobre a tentativa de luciano martins parecer algo além de decoração (leia aqui). no fundo, arte e política são sobre o agora. por isso quis fazer de minha mediação algo contemporâneo e nada alienado do nos cerca, pois vejo semelhanças entre o hoje e os "ontens". talvez assim seja possível encontrar a força da matéria?! provavelmente. mas não nos esqueçamos, a matéria mais importante não é a política (nem a economia ou o mercado), nem arte, mas a vida (daí o toque, daí o agora, daí miró).



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

2015, retrospectiva pessoal (um):

não foi um ano fácil, mas não foi um ano improdutivo para mim. comecei 2015 dividido entre vários trabalhos. entre meus projetos, havia aquele que me era mais caro, o disco criado em parceria com felipe melo. um álbum que reflete muito do que vivi no período, tentando, à minha maneira, em meio à uma crise pessoal, pensar a(s) crise(s) ao meu redor - tanto a política, quanto a econômica ou a social (sim, pois enquanto as relações se deterioraram, tentei registrar as tensões que vivi, vivemos). poderia me alongar a respeito deste trabalho e lhe tentar entender criticamente, mas como sei que esse não é meu papel, que poderia inviabilizar leituras alheias, me calo. mesmo sabendo que pouco será dito para além deste post (cristiano de sales foi uma feliz exceção, leia aqui). 

mafra + melo. florianópolis, santa catarina, brasil, 2015.


domingo, 13 de dezembro de 2015

uma canção:


quando o nosso entorno é brutal, façamos música. que fique claro, esse texto não é texto, é uma canção. é sobre a acachapante derrota do amor nos nossos dias e sobre como sua força resiste. o amor, embora seja um termo batido (que vende coisas inúteis em propagandas chorosas), é maior que o ódio que nos cerca. talvez você não tenha estado hoje no p12 assistindo a orquestra buena vista social club, nem tenha me visto chorando como criança nos bastidores. talvez você nem saiba quem é o grupo, formado por jovens, velhos, senhores, senhoras, brancos, negros e mestiços cubanos. talvez você não saiba que eles tem muito mais a ver com o brasil, do que poderiam imaginar alguns. talvez você seja um desses que é contra as "cotas" em nossas universidades públicas e talvez não perceba onde quero chegar. talvez você não esteja me entendendo, por isso, gostaria de explicar que essa música é sobre você, sobre como a alegria (e o amor, por que não?!) pode(m) ser maior(es) que estas e outras questões que poderiam nos dividir e sobre o brasil, cuba e a nossa relação com nós mesmos.

no dia em que alguns, poucos, foram para o meio da rua gritar contra uma mulher eleita democraticamente, no mesmo dia em que alguns foram para a rua em apoio a um homem corrupto que age contra a democracia, havia um grupo de cubanos se apresentando em um palco "nobre" de uma cidade turística, em um bairro de casas milionárias. isso em um país em que tantos negros e mestiços continuam sendo assassinados e tratados como sub-gente (sem que ninguém saia a rua em sua defesa, vociferando palavras de ordem). no mesmo país em que um idiota publica um livro cujo título diz "não somos racistas". logo nesse país, há esse show, logo de um grupo musical vindo de um país outro, onde há uma "ditadura". sim, uso aspas e o faço por saber que esse é um termo que não nos permite olhar para aquele lugar como deveríamos. se há muitos problemas lá, há mais problemas aqui. que importa, no fim, é tentarmos nos entender através do diálogo , das nossas contradições e de suas riquezas. dentro, claro, daquilo que chamamos democracia.

queria cantar sobre o gesto de omara portuondo me dizendo "no llores, niño". mas queria, também, cantar sobre o mar de jurerê internacional, e sobrepor ainda a imagem das meninas lindas em vestidos caros ignorando algumas das belezas apresentadas no palco enquanto tomavam veuve clicquot em um camarote. queria poder explicar minhas razões, minhas lágrimas, meu sentimentos, dizer que omara me deixa profundamente emocionado e que havia, sim, muita gente interessada em cada nota, cada levada, cada passo de dança daquele grupo. 

mas que fique claro, esse texto é sobre a diáspora. é sobre como milhares de pessoas negras foram trazidas em barcos fétidos e escravizadas no nosso continente. é sobre o fato de que muitos de nós, talvez você (quem sabe?!), não entendem porque esse é um assunto importante. a despeito do que pensam uns, eu sou, sim, orgulhosamente, na medida em que devemos nos orgulhar do que somos, um mestiço brasileiro. minha canção é sobre minha avó materna, filha de uma índia e de um negro. minha canção é sobre como essa gente sofreu, penou e continuou sorrindo. sobre como produziram samba, choro, reggae, son, rap, rock, funk, tamborzão, jazz, cumbia, etc, e ainda foram capazes de, com suas mãos calejadas, erguer os edifícios em que moramos, colher a cana que adoça nossa vida ou limpar a mesma casa que pergunta que horas ela volta?. assim como os negros, mestiços e brancos daquela pequena ilha, cuba, e dessa outra, florianópolis, quis fazer uma canção que fosse "dançante, dissonante, quase triste e delicada"...

eu quis fazer essa música sobre mim e sobre você. quis falar da diferença, mas, sobretudo, do que temos em comum, a despeito da indiferença em nosso dia-a-dia. minha canção é também sobre minha filha loira e sobre os olhos azuis da minha avó paterna. minha canção é sobre um desejo, de que tenhamos um novo ciclo depois de todo o turbilhão. se o nosso entorno for brutal, façamos como fizeram aqueles homens, mulheres, crianças, que foram trazidos para cá contra a sua vontade e que, a despeito de tanta dor, nos proporcionaram e nos proporcionam tantas alegrias. façamos (com) amor!


terça-feira, 17 de novembro de 2015

só sejamos francos, não percamos tempo:

meu texto sobre  o prêmio da música de santa catarina foi repostado pelo site do diário catarinense (a publicação original está nas minúsculas, logo abaixo, e a segunda versão pode ser lida neste link). por conta disso tem havido, lá no feyçybuque (nosso(?!) palco diário de discussões), algumas conversas em torno de questões do projeto, que amanhã terá sua grande noite no teatro do cic. porém, que importa não é quem concorda com meus argumentos ou porque discorda deles, mas, sim, o que podemos construir através desta pauta. o fato da minha fala ter sido publicada em um dos veículos do maior grupo de comunicação do sul do país, trouxe (novamente) à tona um outro debate... 

geraldo borges, importante produtor, músico e agente (agregador) da cadeia produtiva da música na cidade e no estado, apontou o dedo para a ferida, lançou questões em torno da (TEMPESTUOSA) relação entre rbs & artistas daqui. não é de hoje que, principalmente na área da música, esta é uma relação difícil. eu mesmo já vivi situações difíceis, para além daquela que há alguns anos publiquei aqui - mas não quero voltar às minhas histórias agora, quero apontar novos caminhos possíveis. 

ao citar as rádios atlântida e itapema e nos lembrar que a música produzida em sc há anos está fora da programação destes veículos, geraldo diz algo pertinente (leia aqui), mas há muitas outras questões que deveriam se somar ao tentarmos entender os porquês da atual situação. dentre elas estão duas grandes mazelas, uma brasileira e outra local: 01) jabá (hoje atendendo por nomes menos feios, como "verba de divulgação", é procedimento comum entre rádios, gravadoras e artistas), 02) provincianismo (quem me conhece sabe que uso recorrentemente o termo, por escrito ou ao vivo...). 

quanto ao primeiro item, embora não queira expor ninguém, não serei hipócrita em negar que existe ou fingir que não orienta parcela significativa do que chamamos $uce$$o. em florianópolis, santa catarina (estado de excelência de cu é rola!!!), a coisa não é diferente. somos tão corruptos quanto tantos outros lugares da nação. políticos, radialistas e produtores daqui, em sua maioria, não são exceção. não é preciso lembrar que esse tipo de coisa ainda acontece, que bandas locais são convidadas a comprarem caros presentes para serem sorteados por rádios, nem que muitos artistas acham que isso é "normal" e que pensam que quando alguém discorda ou crítica o faz por "inveja". pior é saber disso em um tempo como o nosso, em que esse veículo (o rádio) tem cada vez menos audiência.

mas quero falar do provincianismo e de como ele nos faz mal. a itapema fm negou, ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, espaço à gente tão talentosa quanto tatiana cobbett & marco oliva, silvio mansani, ana paula da silva, samambaia sound club, caraudácia e muitos outros. ouvi, anos atrás, que discos daqui não tinham "qualidade" para rodar ao lado de cassia eller ou lenine. acontece que, com o tempo, a produção local superou problemas técnicos (de mixagem, de masterização). contraditoriamente, artistas, iniciantes ou não, dos mais diferentes lugares tiveram, no mesmo período, sua música apresentada na rádio, a despeito de terem alguns dos problemas citados acima. POR QUÊ?! (espero que apenas por) provincianismo. 

falemos, então, de como uma música minha em parceria com luiz meira, essa, esteve na programação de uma rádio de buenos aires e de como aqui, preferiu-se apresentar outra do mesmo disco. essa, que tem zeca baleiro dividindo os vocais com o "músico local". mais exemplo?! tivemos tijuquera entre os mais executadas na oi fm do rio de janeiro, enquanto em sua terra... mais?! que tal emília carmona ter entrado na programação através de uma gravação do grupo novaiorquino wax poetic?! mérito para ela? sim. todavia, pergunto: há ou não há provincianismo nessas escolhas?! será que todas as faixas do disco que lancei com felipe melo este ano estão tão fora do padrão itapema de qualidade?! o que é preciso para impressionar pedro leite?! se este senhor é apresentado sempre como pesquisador e conhecedor da música popular contemporânea, por que ignora o que está ao seu redor?! seríamos tão ruins assim?! 

cito o radialista, mas quero aproveitar para esclarecer que me desgostaria que meu texto, mais uma vez, fosse lido como outro "desabafo polêmico" de um "encrenqueiro" ou algo assim. sou alguém que quer dialogar. porém, de modo franco e com ética. que fique claro: NÃO ESTOU ATACANDO NINGUÉM, MUITO MENOS UMA GRANDE CORPORAÇÃO! até por entender que não vale o esforço. a itapema merece aplauso. ainda assim, é preciso não calar diante do que atinge trabalhos como o meu e de outros.

antes que alguém diga "ah, eles que se fodam, quem precisa de um grande grupo de mídia hoje?!", é preciso lembrar que o buraco é sempre mais embaixo. precisamos, sim, e esta não é uma via de mão única. só um idiota creria nisso. ao se omitir, rbs perde espaço. o jornal notícias do dia é exemplo, pois há algum tempo entendeu essa lógica e "rouba" público do seu concorrente. mas é preciso dizer também que existe uma concessão pública, que existem leis que garantem espaço para a produção local nestas rádios e que estas leis são veementemente ignoradas. no fim, uma mudança de atitude não faria bem apenas a "artistas desconhecidos". 

entre meados e fins da década passada, passamos por um período fértil na criação e produção de arte em florianópolis, a música acabou por ser um dos destaques daquele momento. um dos fatores que contribuíram decisivamente para isso, creio, foi o fato de alguém como dorva resende, que na época estava à frente da cobertura de cultura do diário catarinense, ter se atentado para este diálogo... 

por fim, esta discussão não pode ignorar outra perspectiva também, a crença de que um trabalho por si constrói "seu lugar" e "seu público". alexandre matias disse algo assim em um dos seus ótimos textos (leia aqui), embora concorde parcialmente com ele, sou obrigado a fazer ressalvas: aqui, no brasil, sendo este o país que é, sem uma "assessoria de imprensa", um disco, bom ou ruim, provavelmente será muitíssimo pouco ouvido. há exceções?! sim. porém, pensemos juntos, vejamos que cruel: sendo você um artista independente, precisa bancar seu a) show (que raramente dá lucro), b) seu disco (pagar estúdio, produção, mixagem, masterização), c) sua prensagem (quando é possível fazer e, ainda entender que, de modo geral, discos hoje são cartão de visitas e devem ser distribuídos gratuitamente) e d) uma assessoria... (isso sem contar a grana de divulgação do feyçy, do youtube, além de um "vídeozinho caprichado"). imaginem como a coisa pioraria se tivéssemos, como temos, o poder público não cumprindo leis que deveriam trazer novas possibilidades aos artistas e protegê-los de um cenário tão difícil... pois é. 

minha pergunta final é um convite aos que querem uma cidade melhor: será que não é possível, em pleno século XXI construir novas possibilidades, novos diálogos, novos caminhos?! 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

sobre meninos e o mundo como o temos:

a vida é dura. há o sabor, mas há muito mais dessabores, como sabemos, ou deveríamos. hoje perdi um amigo. mais um. foram três nos últimos meses. um tempo triste esse. um tempo de guerra. um tempo de ódio e de reconstrução. mas esse dia, de hoje, me fez refletir sobre muitas questões. lembrei, inclusive, de um texto que escrevi um tempo atrás, um texto que fiz para um amigo que partiu, um menino - talvez sejamos todos meninos ainda... talvez. tenho poucas certezas, mas uma delas é que essas garotas, as tais feministas, feminazis como querem alguns, tem razão. o machismo deve ser combatido. e não apenas por ser opressor para com o sexo feminino, mas por oprimir meninos como a gente. muitos de nós, inteligentes, bonitos, talentosos, articulados, críticos, fazemos de conta que nada é nada e, aos poucos, quase sempre, seguimos nos matando lentamente. 

este texto não é sobre feminismo, nem é sobre você, mas poderia. esse texto é sobre um menino que se matou. lá se vão alguns anos e dia desses eu tentava lembrar o seu nome. a gente esquece, o tempo passa. agora eu sei, graças a um outro amigo. mas sei mais, sei que esse mundo, esse tempo, podem nos proporcionar novas visões, novas relações. não só às mulheres ou entre nós, meninos, mas da gente consigo mesmo, com nosso corpo, nossa vida. esse texto é sobre o menino dentro de mim, esse que eu vim matando devagarinho. note, não sou machista. não exatamente, mas me deixei levar pela lógica ao meu redor, a lógica que oprime e nos faz querer ser imortais. estou falando de beber demais. estou falando de dormir mal. estou falando de cocaína. estou falando de cigarros diários. estou falando de jogar as tristezas para baixo do tapete. 

tenho duas filhas, amo essas garotas e quero lhes ser presente. não pretendo me matar, a despeito do mundo em que vivemos não ser lá muito acolhedor. não pretendo nem me matar aos poucos, devagarinho...

segue o texto que escrevi para um menino que partiu. dedico aos meus amigos como um pedido, fiquem, sejamos fortes.

___________

"(...) soube agora a pouco, meu querido, que, logo você, com quem eu tomava longos e divertidos cafés, acabou com a própria vida.

éramos um grupo animado, lembra? eu não esqueço. dos nossos amigos, um está na frança fazendo doutorado e os outros estão por aqui. aquele que era da sua turma e que tinha uma risada engraçada, escreve inúmeros artigos sobre artes plásticas e tem um livro publicado. outros dois, os que tinham uma banda com um nome escatológico, estão fazendo coisas, um alimenta um blog e o segundo está em tubarão trabalhando na área de cultura. outro já não vejo, mas esse eu sei que continua dando aula e escrevendo – sim, nosso querido amigo professor de literatura brasileira acabou de publicar mais um livro com poemas (eu li no jornal dia desses). tem uma que foi pra brasília – e está ganhando bem – e os outros estão por aí, e vão sentir sua falta. 

nos encontrávamos diariamente e contávamos os centavos pro café... quando não havia grana saíamos do r.u. pra algum laboratório de lingüística ou de literatura em que algum bolsista amigo nos deixa filar um pouco do nosso néctar. nós gostávamos de café e, se não me engano, além de adorar tirar sarro dos nossos colegas, acho que fazíamos aniversário no mesmo dia... e fazíamos mais coisas, comentávamos as aulas de raúl antelo e íamos aos cafés literários do sesc pra comer e discutir questões que achávamos importantes e assistíamos filmes e peças e shows que rendiam longos papos cheios de citações e escárnio. líamos de tudo, e éramos críticos ferozes... lembra do rico esculachando o mirisila e dizendo que deveríamos largar tudo e ler onetti?!? 

foi naquele período que me vi uma fraude, não tinha saco pra academia, não tinha vontade de ler foucault ou said com lápis na mão (aliás, até hoje não terminei o primeiro capitulo dos fragmentos do discurso amoroso, sabia?!?). mas tem uma coisa que não te contei, foram vocês que me ajudaram a perceber isso – que eu não era intelectual. admirava e invejava esse seu senso de humor ácido e quase infantil, esbanjando uma inteligência rara (porra, você aprendeu romeno sozinho – e só pra tirar um onda!).

ah, meu querido, nem sei ao certo o que dizer, mas estou chocado em saber que não mais nos cruzaremos por aí. aliás, percebi agora que faz um ano que não nos vemos... triste. um grande abraço pra você (...)".

terça-feira, 3 de novembro de 2015

prêmio da música de santa catarina:



santa catarina é um estado rico. santa catarina tem o pib do chile. santa catarina é o brasil que dá certo. mentira. só um idiota ou um ingenuo acreditariam nesse tipo de falácia. sc, de fato, tem um pib parecido com o do país vizinho, mas como vivemos em um lugar cujo investimento em cultura é sofrível, é possível, sim, dizer que este é um lugar muito pobre. temos uma secretaria de estado que junta turismo e esporte e cultura e que tem tido, ao longo dos últimos anos, um orçamento enorme, mas que é muitíssimo "mal usado"... a verdade é que se tivéssemos um ministério público combativo, essa "secretaria frankestein" já não existiria. a verdade é que santa catarina é uma enganação. a verdade é que sem uma produção de cultura consistente, seremos sempre paupérrimos (a despeito das festas no p12, etc). 

note, dizer isso não é atacar sc gratuitamente, ao contrário, é propor uma mudança de comportamento, de pensamento, de postura. 

em terra de cego, quem tem olho é rei? "mulher de malandro", depois de muito apanhar, não percebe que um afago qualquer não é exatamente "um carinho"?! 

inscrevi o disco que eu e felipe melo (ouça aqui) lançamos esse ano no prêmio da música de santa catarina (veja aqui os indicados). não o faria e dei meus "porquês" publicamente, mas não por ter algo contra a iniciativa, pelo contrário, acho digna de aplauso. não pretendia fazê-lo por achar o prêmio confuso, pouco consistente e por não me interessar o modo como ele vinha sendo organizado... mas por conta de uma conversa pública, via feyçy, com alguns músicos, jornalistas e entusiastas do cenário local, mudei de opinião. todavia, depois de ver meu nome entre os indicados, de ter pesquisado sobre alguns os artistas da lista, fiquei, sim, decepcionado com a ordem geral das coisas... mas fiquei em dúvida se deveria tornar pública minha frustração, afinal, valorizo a iniciativa e respeito o seu principal idealizador, marcio pimenta. por esse motivo, tento elaborar melhor minha fala, para que ela não pareça o que não é. para começar, é difícil levar a sério um prêmio cujo regulamento e curadoria se mostram pouco precisos. exemplos: 01) como "o sol", de chico martins, está concorrendo como "música do ano" se ela foi lançada em 2012?! 02) se o trio da caverna for eleita a melhor banda de 2015, será no mínimo irônico pensar que eles estão praticamente parados, que fizeram apenas três apresentações até aqui. mais exemplos?! prefiro não, pois respeito os indicados e sei que essa iniciativa ajuda a divulgar os nossos trabalhos. 

há um problema ético na minha crítica se tornar pública?! sim, pode ser que alguém fique magoado? sim. que fique claro: adoraria que minha fala ajudasse a melhorar o projeto e a nos fazer pensar criticamente a respeito do (pouco) que temos, nossos problemas e possíveis soluções. o que quero é propor melhoras. mas sei que as chances de ser mal interpretado são ENORMES. ainda assim, prefiro correr o rico e problematizar, sim, que ficar criticando ao pé de ouvido dos chegados... é coerente com a minha trajetória me colocar e é pertinente, também, participar do prêmio da música de sc, por mais que veja problemas em sua organização-feitura, pois acredito que devemos fortalecer iniciativas como essa. 

tem mais, tendo o prêmio dinheiro oriundo dessa mesma secretaria pouco transparente que citei acima, é fundamental discutirmos e apontarmos novos caminhos para seus responsáveis. 

santa catarina não é um estado tão rico assim, mas podemos fazê-lo um lugar melhor. depende de nós. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

jurerê jazz festival:

hoje se inicia o jurerê jazz festival, edição 2015. trabalho em sua produção e ando cansado e cheio de coisas para resolver, mas feliz, muito feliz com o que estamos vivendo. 

lembrei de uma história de bastidores, no meu primeiro jj, em 2013. naquela ocasião vi algo que mudou meu modo de fazer produção. por isso, se um dia alguém me perguntar como se faz um festival de música, talvez eu responda que com amor... não apenas, claro (há que se ter organização, foco, muito trabalho e dinheiro... mas amor também). 

no domingo de encerramento daquela edição, o dia amanheceu ensolarado. o sol, porém, logo foi engolido pela chuva e choveu durante toda a tarde. a equipe de produção achou, então, melhor cancelar a apresentação daquela noite, que seria ao ar livre. um quarteto formado por 4 "bambas" (o trompetista norte-americano rob mazurek, o rabequista suíço thomas rohrer e os multi-instrumentistas brasileiros maurício takara e guilherme granado - ambos do hurtmold), faria o show. seria uma pena cancelar, mas precisava ser feito. só que não foi...

afinal, entre às 18 e às 19 horas, o tempo abriu e o público apareceu. as pessoas simplesmente chegaram para a apresentação. a produção voltou atrás e correu para organizar tudo. e rapidamente, claro. logo houve a montagem dos equipamentos no palco, a passagem de som e a organização (e secagem!) das cadeiras para acomodar os que chegavam. foi esta última parte que me fez pensar em amor. sim, afinal, ela foi construída com a participação efetiva do público. que entendeu nosso atraso, que não se incomodou em esperar e ajudou no que pode.

aquele foi apenas um dos momentos bonitos de uma noite de comunhão entre público, artistas e produção. foi bonito e eu não esqueci. que assim seja agora. que o amor com que estamos preparando tudo esteja também no público e nos artistas. o festival é nosso e o amor também, é só querer. 

(por fim: beijo pro abel, pra marina, pra maira, pro arturo, pra juliana, pra mari, pro bruno, pro oscar, pro julio e não apenas para quem está conosco neste ano, mas também para outros companheiros de outras edições)

e a programação do festival pode ser vista aqui.

e a foto que ilustra este post é do grande antonio rossa.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

preferia enumerar outras coisas:

depois que o carnaval passar, o pior está por vir? talvez sim, provavelmente. mas afinal, quem são os exaltados? o povo está na rua? a classe média não é povo? e o que é a elite (que elite? financeira?). a rua, afinal, é lugar de quem? 

a grande-imprensa-livre-leve-solta cospe seu ódio contra um governo de mãos atadas. em seu comando, do governo, há uma idiota coagida, diga-se de passagem (incompetente, principalmente, em sua comunicação com seus pares e adversários). mas vítima, SIM (também, ora), de manobras dos que não lhe querem lá. e os que não lhe querem no poder não são exatamente o bombadinho-semi-alfabetizado-que-diz-"top"-quando-quer-dizer-"foda" e que se acha "ligado", nem a senhora-cristã-horrorizada-com-tudo-que-aí-está ou o "pai-de-família"-homofóbico-que-odeia-"comunista", mas a máquina manipuladora por trás deles. eles que não creem na máquina, que distrai toda a gente com sua(s) novela(s). a máquina é poderosa e, por sua vez, está apenas defendendo os privilégios (e o dinheiro, claro) dos seus. e existem tantos interesses em jogo... o meu, o seu e os deles. ganha quem tiver mais força. 

eu, coitado, sou as minhas palavras e palavras são muito pouco ou quase nada. 

esteja claro: a violência de fato ainda não explodiu. a violência ainda virá. os golpes (baixos) virão. 

houve uma vez, em um país outro, muito distante deste, um presidente trabalhista execrado pela "elite" e pelos grandes veículos de comunicação (que lhe viam surfando em um mar de lama). esse presidente também teve suas mãos atadas. esse presidente também errou ao tentar se aliançar com a direita intransigente que defendia os interesses da máquina (no afã da dita governabilidade). esse presidente permaneceu em seu lugar até um ato de violência lhe ter sido atribuído. daí em diante, veio mais violência, agora contra o poder constituído democraticamente. e essa violência, lá naquele país tão distante, há 61 anos, é a mesma que pode vir a se desencadear, talvez, aqui. 

não? um golpe de força, um golpe de vista, um golpe certeiro, um golpe apenas... será? como? são tantos os exemplos, mas só um já basta: um atentado contra a imprensa livre-leve-solta-que-cospe-seu-ódio poderia ser tachado como terrorismo e se desdobrar em dias piores. eu sei, sou um babaca-com-mania-de-perseguição-citando-teorias-conspiratórias, então, mas, creia-me, essa foi e continua sendo uma das estratégias de um poderoso país do norte a quem não interessa o que está aí. e as torres gêmeas e pearl habor são duas ficções a não serem ignoradas. 

depois do carnaval, o que teremos? dias de ódio? dias de golpes? dias de diálogo? "se temos uma terrorista no comando", dirá o bombadinho-semi-alfabetizado com os que tem desprezo para o que está além do seu micro cosmo. você que me perdoe pelo devaneio entrecortado, mas eu preciso destas palavras escritas.

(e a foto aí de cima não é carnaval)