domingo, 3 de abril de 2016

ânimo novo:

transito em transe e
em meu atraso trago:

traje de banho
ânimo novo
ovo em conserva
erva da boa
e o que me soa
música
vida
densa, dura, trágica
e o que nos resta além da festa?!


(eu sou do tipo que faz comício 
e tem horror a compromisso)

segunda-feira, 28 de março de 2016

eu vivo o feio e o belo:

não tenho tido medo de expor minhas dores. aceitar o fato é dizer também que o que me motiva não é o holofote, mas o querer estar inteiro e "sem maquiagem". é fugir do lugar mais cômodo... em 2015, atravessei um período difícil (coisas do mundo, minha nega). o pouco dinheiro, a falta de perspectivas (pessoais e artísticas) y otras cositas más quase me asfixiaram. fiz uma pausa e desde então me sinto no ar. poucos planos, quase nenhuma direção. foi difícil e triste, sim. vivi ainda a infeliz coincidência do falecimento de amigos naqueles dias. mas o tempo cicatriza e o tal sentimento, "de estar no ar", me fez bem. todavia, o vento começou a mudar a partir de fins de novembro passado, quando eu e andré seben nos sentamos no chão da loja pulp (em um antigo casarão no centro da nossa cidade) e criamos rush de amor à ilha.

meu orgulho não se resume ao resultado dessa empreitada, se estende ao que me foi trazido no seu processo de construção: confiança. de lá para cá fiz outros trabalhos (na pulp, inclusive) e compus e compus. mais: repensei músicas que tenho guardadas em minhas "gavetas" há anos (eu hoje joguei tanta coisa fora / vi o meu passado passar por mim) e tenho tentando colocar novas ideias em prática. pouco fiz sozinho, pois entendi que sou melhor com interlocutores. 

dentre meus parceiros desde então, cito, além de mr. seben, luís canela, thiago gomes, cícero bordignon, ulysses dutra, márcio costa, bárbara damásio, yoyo borobia e bruno ropelato. cada qual por um motivo, todos com igual importância. há mais por vir, existem planos e "canções engatilhadas". mas não há pressa. o que me faz crer que estar no ar pode não ser ruim.

continuo fazendo música, ao menos por enquanto, pois entendi que assim respiro melhor. entendi que sou parte do meu entorno e que sou também "desterra destruída em reconstrução". sou vítima e sou algoz (a cidade é parte de mim). sou mais do que supunha e se estou mais forte a cada nova queda, é por entender que é possível fazer do amanhã algo melhor do que o que antevemos agora. aqui, "num pedacinho de terra", ou por aí, pelo continente multicolorido que chamamos brasil - com suas dores, holofotes, maquiagens.

e para quem não assistiu ou não ouviu: RUSH DE AMOR À ILHA:

(foto e vídeo: bruno ropelato)

sexta-feira, 18 de março de 2016

de domingo para cá:

no domingo em que muitos brasileiros foram às ruas protestar, passei parte do dia em um almoço em que comemoramos o aniversário do filho de um casal de amigos. aliás, nosso afilhado, meu e da mulher com que divido a vida. tínhamos a companhia de duas meninas, a nossa e a filha dos nossos convidados. o dia transcorreu tranquilo. embora não tenhamos evitado as notícias do brasil...

no fim de tarde soube da tragédia: a morte de outro grande amigo. peguei o primeiro ônibus que pude, segui pro oeste de santa catarina. em minha cabeça, noite adentro, se embaralharam o nosso momento tenso e as lembranças do que escrevi em uma das cartas que trocamos em 1992, o "ano dos caras pintadas". a situação hoje é outra, as pessoas nas ruas e sua indignação são diferentes. ainda assim, não por coincidência, alimentando "o movimento", há novamente a poderosa rede globo

na noite de ontem, o amigo com quem almoçamos domingo, foi agredido. do seu carro, parado em um semáforo, levou um soco por se negar a se juntar aos manifestantes. eu e ele sabemos que a grande mídia brasileira está entre os principais responsáveis pelo clima violento. a derrocada da economia se deve não apenas aos equívocos do governo. existem, claro, interesses maiores, que unem poderosas corporações. obviamente, o cidadão médio, que lê pouco e vê muita tv, não sabe disso, é levado pelo que lhes apresentam e, assim, ajuda a afundar o país. o pt, a presidenta e outros dos protagonistas dos escândalos nos jornais, têm, sim, sua responsabilidade e merecem ser investigados. se de fato houver provas, precisam pagar pelo que "devem". todavia, como confiar na justiça e na imprensa que temos?! só sendo muito ingênuo ou agindo por interesses particulares... 

não sei em que acreditava meu amigo morto. tínhamos personalidades distintas. mas isso nunca foi problema para nós. nos entendíamos e nos admirávamos por nossas diferenças. que importa se ele defendesse esse ou aquele partido, se julgasse o que nos rodeia com tranquilidade ou não?! não lhe deixaria de amar. poderia ficar magoado ou decepcionado, sim, como estou com outros (gente da minha família, parceiros da música e conhecidos), mas jamais deixaria de querer bem alguém com quem dividi momentos que ajudaram a fazer de mim quem sou. 

o desentendimento geral, entre amigos ou familiares, faz parte do quebra cabeça que tento montar por esses dias. imagino meu tio evangélico defendendo o pastor homofóbico ou o amigo músico que odeia o pt e se faz de neutro, mas vibra com as notícias ruins. ora, se eu, que leio há anos sobre política e história, que me interesso e tento aprofundar questões, me sinto confuso, como querer julgar os que, tristemente, defendem ideias alheias com intransigência!? muitos, amparados em informações parciais, emitem opiniões veementes. a maioria compra as "certezas" vendidas pela imprensa financiada por quem quer derrubar qualquer governo que não lhe sirva mais. 

venho evitando essas questões. estive mais dentro do debate e já quis me manter alheio também. vivemos, infelizmente, um momento em que é difícil apartado do que há. daí, estar em trânsito por santa catarina, madrugada a dentro, me fez pensar se teria sido meu amigo, afinal, vítima da incompetência do governo daqui. tendo sido o primeiro caso fatal de dengue hemorrágica da sua região, após equívocos em seu diagnóstico, haveria como ter salvado sua vida?! a quem deveríamos responsabilizar pelo fato dele ter sido deixado por 2 horas sem atendimento em um corredor de hospital?! como não se indignar com a morte de alguém de 37 anos!? estranhamente, não se vê manifestações contra um governo como o de sc, que trai professores, maquia números da saúde e que segue desrespeitando a classe artística... 

no fim, tudo é ideologia (como nos ensina a análise do discurso), tanto o marketing do empreendedorismo ou a militância dos que defendem o pt com ardor são frutos de opções ideológicas. lamenta-se, sim que as pessoas tomem partido sem entender que são "massa de manobra" (note, não estou falando de direita ou esquerda, mas da falta de autonomia da maioria). 

a situação é complexa, claro, mas tem sido muito difícil ignorar o "motor" por trás da indignação seletiva. afinal, o “big brother” está entre nós... entre a quarta e quinta-feira, quando passei pouco mais de 24 horas em um hospital, acompanhando a mulher que amo em uma cirurgia, vi a força da mais poderosa emissora de tv do brasil: nos quartos, nos corredores, na enfermaria, no restaurante, na sala de espera, nas lanchonetes na rua (em frente ao enorme prédio), as telas todas se conectavam ao mesmíssimo canal. o reality show que colocou o personagem do livro 1984 no imaginário geral, omite o que ele tem de terrível e cruel. a maioria não faz ideia da ironia por trás disso. na história de george orwell o sexo é crime. no mundo em que vivemos hoje, o amor e a amizade são antídotos. precisamos não calar diante do ódio. 

foi uma semana de emoções. tenho chorado muito nos últimos dias. ando dolorido, mas acredito que é possível superar o que estamos vivendo com diálogo. eu e meu amigo de infância, aprendemos muito um com o outro, justamente por sermos diferentes. tenho muito orgulho dele e da amizade que construímos ao longo de 26 anos. por isso entendo que agora é hora de conversarmos uns com os outros. afinal, não será possível fazê-lo com a tv/"big brother".

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

"quem me dera agradar você":

em 2001 um grupo de compositores se reuniu por 3 ou 4 vezes, talvez 5. isso foi em florianópolis. e a coisa se desencadeou a partir do 2º festival de música do sesc. o objetivo não era muito claro, mas se acreditava que dali sairia um espetáculo com canções destes artistas. nada foi pra frente. 

aquela gente continuou fazendo música nos anos seguintes. luís canela, silvio mansani, jean mafra (eu), samuel góes, neno miranda, tatiana cobbett, marcoliva e emílio pagotto. esse último cedeu a casa e propôs os encontros. outros músicos também se juntaram ao grupo em alguma das ocasiões (aliás, já não sei precisar se tatiana e marcoliva realmente estiveram junto aos citados acima). emílio era mais velho que a maioria e costumava pedir para os artistas apresentarem músicas suas. sua estratégia, professoral, era fazer o autor ouvir (além de palmas) palpites: elogios e críticas que (embora alguns discordassem) enriquecia suas criações (tenho a impressão que fui o maior beneficiado...). 

essa iniciativa juntou gente que ajudaria a movimentar o cenário musical da cidade. lá se vão 15 anos. pouca coisa mudou, mas tudo está diferente. 

jean mafra e luís canela se apresentam nesta quinta-feira no café dos artistas. o show (saiba mais aqui), simples, direto e ainda em construção, rememora, em parte, esses artistas e aqueles encontros (e tem músicas de alguns dos citados no repertório). ainda assim, a ideia é não ser nostálgico, haverá canções inéditas e releituras. 

__________

EMÍLIO PAGOTTO, além de professor de linguística, produziu com canela o show cumbuca de camelô, compôs um musical (paraíba woman) que foi encenado por paulo vasilescu e criou com silvio mansani um álbum com canções infantis (no dorso do rinoceronte).

LUÍS CANELA, depois do show com pagotto, (dentre outras coisas) lançou disco solo, se juntou a silvio mansani no show-projeto infantil (que gerou mais um álbum) e ao grupo FELIXFÔNICA (com quem tem dois discos gravados, sendo um inédito). 

SILVIO MANSANI gravou três discos solo, compôs com alguns importantes nomes da cena de música popular do brasil e segue produzindo novo trabalho.

TATIANA COBBETT e MARCOLIVA continuam criando juntos, já tem 4 álbuns no currículo, além de variadas parcerias e muitos shows mundo afora... (é preciso dizer que tatiana vez ou outra ainda promove encontros como aqueles).

NENO MIRANDA, que teve canções suas gravadas por outros artistas da cidade, continua compondo e fazendo shows e gravou disco solo há alguns anos.

SAMUEL GÓES é hoje um respeitado professor e, até onde sei, continua compondo (eu mesmo gravei uma canção sua - ESSA).

JEAN MAFRA (sim, eu) fez parte da SAMAMBAIA SOUND CLUB e do BONDE VERTIGEM, gravou trabalhos sozinho e em parceria com outros músicos.

(*o título deste post foi tirado da letra desta canção, que ganhou a etapa florianópolis daquele festival de música)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

que clube da luta, que nada:

verão, janeiro, florianópolis, uma festa! legal. legal, nada. só mais uma... certo?! não. esse encontro, celebração, reunirá alguns daqueles que há 10 anos ajudaram a reconstruir o cenário de música autoral nesta cidade. reconstruir?! sim. aqui, de modo geral, a memória é escassa. você, que tem menos de 25 anos, sabe das bandas/artistas desse povoado? ou do que passou pelos ouvidos, rádios e palcos da capital de santa catarina ao longo dos últimos anos?! não. certo?! eu também não sabia. 

por isso, penso, é importante lembrar: na década de 1980 tivemos bandas e público em sintonia e nos anos 1990, depois de um hiato inicial, houve uma outra cena. mas o entusiasmo geral caiu novamente e, durante a primeira metade da década passada, tirando poucas exceções, houve certa "pasmaceira" e dificuldades para os que queriam produzir música autoral aqui. todavia, através da criação de um coletivo chamado CLUBE DA LUTA, acontece novo momento de potência (de encontro, de alegria e de atrito - e sem atrito não há fogo!). essa gente, bandas como tijuquera, samambaia sound club, aerocirco, andrey & a babba, da caverna, coletivo operante, maltines e outras, criaram uma série de festas/shows e, além ainda, foram responsáveis pelo nascimento de uma importante casa para a produção de música autoral daqui (ainda hoje): a célula

voltemos, então, ao começo: verão, janeiro, sexta-feira, dia 08, tem festa, encontro, comemoração. celebração de 10 anos do nascimento do clube da luta, certo?! não. mas poderia ser. claro. essa noite, no fim, é de reunião de duas bandas já extintas e de encontro com uma terceira, que se reconstruiu... (ambas foram protagonistas daquele momento)

o AEROCIRCO lançou 4 álbuns de estúdio, mais 1 ao vivo, rodou o país e conquistou seu público através da força das canções do seu vocalista, fábio della. o quarteto encerrou suas atividades já há alguns anos, mas estará novamente reunido para celebrar o passado e o presente (afinal, seus ex-membros continuam produzindo).

a SAMAMBAIA SOUND CLUB colocou 2 discos e 1 ep de remixes na rua, viajou, tocou para diferentes públicos, tanto em sc, quanto em porto alegre, rio de janeiro, são paulo e curitiba. foi amada e odiada por muitos e se desdobrou em outros trabalhos (seu vocalista - sim, eu - fez discos só e acompanhado, enquanto parte dos seus remanescentes criou a five boys). 

a BABBA, por sua vez, embora continue tendo como seu vocalista o poeta andrey mesmo, já não assina como antes, ANDREY & A BABA DO DRAGÃO DE KOMODO. após 2 discos de estúdio, muitos shows e uma mudança de direção musical que redefiniu seu som, o grupo segue firme fazendo belezas com pedradas.

MAS E A FESTA? O EVENTO, O QUE TEM A VER COM O CLUBE DA LUTA?! nada. tudo. sim, se aquele coletivo nasceu através de vontades diferentes, de dificuldades distintas, de impasses e contradições, afinal, se nem seus fundadores chegaram a uma síntese do que queriam ou do que foram, será assim esse encontro. comemoração, sim, mas com indignação contra o que ainda precisa ser combatido: o provincianismo que sufoca arte, artistas e públicos daqui. quem somos, que cidade queremos?! quem não entendeu que o clube era (também) sobre essas perguntas, talvez tenha a chance de entender agora. o clube da luta não existe mais. nem aquela cidade e nem seus artistas. tudo mudou. mas tudo continua muito parecido. o que fazer, então? o que for preciso, o que for possível. 


será uma festa, afinal? sim, mas será mais que isso, é só querer... que venham outros clubes, outras cenas, outros artistas, outras contradições e outras verdades. 





sábado, 2 de janeiro de 2016

miró & política & 2015, retrospectiva pessoal (dois):

tendo sido um dos mediadores da exposição joan miró - a força da matéria, acabei por criar uma espécie de narrativa baseada em algumas obras do artista. esse meu recorte, embora pessoal, partiu de leituras prévias não apenas do universo das artes e da crítica, mas também da teoria literária e, principalmente, de livros sobre política (e/ou políticos). sim, e por que não?! além, ainda, construí minha fala através de um olhar que cruzava o tempo do artista com o da exposição. um olhar que tem em seu cerne as notícias do mundo, do país e da cidade em que vivi/vivemos neste melancólico (& tenso) 2015 (sim, este que findou há pouco). 

é pertinente pensar que essa foi a primeira grande exposição de um nome de peso da arte moderna em florianópolis, uma capital relativamente pequena e provinciana. e, note, não digo isso como crítica, mas aceitando um fato e, assim, parabenizando as pessoas por trás da iniciativa. aproveito para agradecer a equipe com que trabalhei, dos seguranças aos funcionários do masc, e cito dois dos meus companheiros de mediação (zaina debouch e henrique vasconcelos), afinal, foi com eles que consegui algumas informações importantes e deles que, muito espertamente, roubei algumas ideias. 


o ponto é que não pretendo transcrever aquele meu roteiro, pois sei que boa parte de sua vitalidade vinha de uma dinâmica que conciliava oralidade com improviso (como no jazz, que é construído na hora, mas que existe a partir de um tema previamente definido e de estudo e domínio técnico) e com algo mais pessoal: o toque. sim, o toque do qual, aliás, não me omiti: toquei as pessoas que acompanhavam minha "narrativa". era importante para mim, por entender que a arte de miró, e a arte de miró em 2015, no brasil, em sc e em florianópolis, deveria vir acompanhada deste tipo de manifestação física. tudo muito pessoal, muito vivo. como a oralidade, como a arte do artista. 


minhas leituras nos últimos três anos variaram, ainda assim, preciso dizer que de 2013 para cá li alguns livros que me ajudaram a enxergar o meu entorno de maneira diferente. destaco alguns: carlos marighella - o guerrilheiro que incendiou o mundo, os três tomos da biografia que lira neto escreveu sobre getúlio vargas, a reinauguração da cultura sobre joan miró (texto de valter hugo mãe incluído no catalogo da exposição), sem logo - a tirania das marcas em um planeta vendido (que apesar de já um tanto "defasada" ainda apresenta um perspectiva bem pertinente sobre o mundo que temos hoje), os sentidos do lulismo e cutucando onças com varas curtas (ambos de andré singer), como funciona a música e outros, inclusive um sobre o qual me debruço neste janeiro: brado retumbante (1 & 2), de paulo markun


talvez algum desavisado pense, "mas o que diabos suas leituras tem a ver com miró"? eu diria: TUDO. ao cruzar estas informações, consigo encontrar pontos em comum entre o tempo do artista e o nosso. miró, como o flâneur de baudelaire, não quer ficar na torre de marfim. nem quer ser o artista alheio à vida e seus desdobramentos mundanos. ele viveu em um tempo difícil, em que o capitalismo vivia suas crises e suas guerras. período não muito diferente deste. aquele homem teve que deixar mulher e filha em um país em guerra civil (pense em um país divido, em um momento de crise(s), pense em interesses maiores e em forças transnacionais agindo). hoje há em sc, inclusive, imigrantes da guerra que acontece no outro lado do mundo, na síria. esse sujeito viveu o tempo do fascismo e do nazismo (que alguns "desenterram", e não apenas aqui, nesse cu do mundo, mas também em "países desenvolvidos e pensantes"). sim, joan miró viu seu nome consolidar-se durante a guerra fria, de um lado o cruel comunismo assassinando milhares, do outro, o capitalismo, igualmente cruel: esmagando ideias/pessoas e assassinando (igualmente, não nos enganemos) outros tantos. se hoje já não há mais comunismo como força política antagônica, há um capitalismo cada vez mais opressor. num mundo em que as grandes corporações são máquinas que controlam a política e em que as riquezas se concentram cada vez mais na mão de pouquíssimos (um cego ou alguém sem empatia negaria, talvez, algo que nem os porta-vozes do liberalismo negam). este sujeito viu seu país ser submetido a uma ditadura. enquanto aqui, no brazil há quem queira a supressão dos direitos democráticos e a volta dos militares ao poder... sim, parece insano e é. 


se o momento é político, não me furtei. não nos furtemos! de todo modo, não pense que omiti questões técnicas ou que deixei de citar fatos sobre sua biografia. nem que calei sobre como ele se opôs a certo academicismo vazio (procurei, sim, encontrar alguns dos seus porquês). que fique claro, usei destas e de outras informações para construir minha fala. trouxe o artista para perto do nosso cotidiano. miró criou sobre o piche? falemos da estrada por onde passa o automóvel (símbolo da modernidade no início do século XX); falemos do petróleo que está no âmago da terra e sendo assim pode ser visto como primitivo/puro (algo que interessa seu trabalho); pensemos além, que esse material, "tão puro", alimenta (contraditoriamente) a máquina que nos oprime, que nos divide, que gera muito dinheiro, que financia campanhas, que derruba governos, que transforma cidades em campos de guerra.


se ele usou, ao criar algumas das suas esculturas, objetos aleatórios, alguns descartados, por que não falar do consumo nos nossos dias?! por que não citar nossa passividade diante dessa nova religião?! sim, o capitalismo (não sou eu que estou dizendo). por que não pensar nas mudanças climáticas que vivemos hoje? ou no desastre provocado pela samarco/vale?! sim, coloquei essas e outras questões em minha mediação. é tudo força da matéria


a potência da obra de um artista está no fato dela poder ser lida de maneiras diferentes (por vezes, até, contraditórias). daí, meu link, agora e não durante a exposição, com a política real (realpolitik?!), não apenas daqui, do brasil, mas do mundo, afinal a desumanização ou coisificação das pessoas através de políticas de austeridade econômica que privilegiam o "mercado" em detrimento das gentes, é algo (ao menos teoricamente) incompatível com a arte. nessa linha, chegar à câmara e ao senado brasileiros e algumas de suas ideias retrógradas, é um passo – se pensarmos que houve um tempo em que o iluminismo guiou o pensamento e que essa concepção nos legou inúmeros problemas e que miró inicia sua caminhada justamente quando artistas, teóricos e cientista tentam construir um novo modo de enxergar o mundo, é possível entender essa minha associação. 



ao dizer que "quando um artista se expressa num contexto em que a liberdade é difícil, (ele) deve converter cada uma das suas obras em uma negação das negações, numa libertação de todas as opressões, de todos os preconceitos e de todos os falsos valores estabelecidos", miró não estaria falando apenas sobre o "seu tempo", sua fala & sua arte não são estanques, elas são também sobre hoje, sobre instituições fragilizadas, sobre falta de bom senso, sobre aquilo que nos impossibilita de entender nosso entorno criticamente. 

é preciso estar atento e se colocar contra os lugares comuns. atacar o gosto médio pode ser uma saída divertida, como quando miró pintou por sobre uma tela impressionista. ou como quando janga, aqui mesmo na nossa desterro, em 2015, escreveu sobre a tentativa de luciano martins parecer algo além de decoração (leia aqui). no fundo, arte e política são sobre o agora. por isso quis fazer de minha mediação algo contemporâneo e nada alienado do nos cerca, pois vejo semelhanças entre o hoje e os "ontens". talvez assim seja possível encontrar a força da matéria?! provavelmente. mas não nos esqueçamos, a matéria mais importante não é a política (nem a economia ou o mercado), nem arte, mas a vida (daí o toque, daí o agora, daí miró).



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

2015, retrospectiva pessoal (um):

não foi um ano fácil, mas não foi um ano improdutivo para mim. comecei 2015 dividido entre vários trabalhos. entre meus projetos, havia aquele que me era mais caro, o disco criado em parceria com felipe melo. um álbum que reflete muito do que vivi no período, tentando, à minha maneira, em meio à uma crise pessoal, pensar a(s) crise(s) ao meu redor - tanto a política, quanto a econômica ou a social (sim, pois enquanto as relações se deterioraram, tentei registrar as tensões que vivi, vivemos). poderia me alongar a respeito deste trabalho e lhe tentar entender criticamente, mas como sei que esse não é meu papel, que poderia inviabilizar leituras alheias, me calo. mesmo sabendo que pouco será dito para além deste post (cristiano de sales foi uma feliz exceção, leia aqui). 

mafra + melo. florianópolis, santa catarina, brasil, 2015.


domingo, 13 de dezembro de 2015

uma canção:


quando o nosso entorno é brutal, façamos música. que fique claro, esse texto não é texto, é uma canção. é sobre a acachapante derrota do amor nos nossos dias e sobre como sua força resiste. o amor, embora seja um termo batido (que vende coisas inúteis em propagandas chorosas), é maior que o ódio que nos cerca. talvez você não tenha estado hoje no p12 assistindo a orquestra buena vista social club, nem tenha me visto chorando como criança nos bastidores. talvez você nem saiba quem é o grupo, formado por jovens, velhos, senhores, senhoras, brancos, negros e mestiços cubanos. talvez você não saiba que eles tem muito mais a ver com o brasil, do que poderiam imaginar alguns. talvez você seja um desses que é contra as "cotas" em nossas universidades públicas e talvez não perceba onde quero chegar. talvez você não esteja me entendendo, por isso, gostaria de explicar que essa música é sobre você, sobre como a alegria (e o amor, por que não?!) pode(m) ser maior(es) que estas e outras questões que poderiam nos dividir e sobre o brasil, cuba e a nossa relação com nós mesmos.

no dia em que alguns, poucos, foram para o meio da rua gritar contra uma mulher eleita democraticamente, no mesmo dia em que alguns foram para a rua em apoio a um homem corrupto que age contra a democracia, havia um grupo de cubanos se apresentando em um palco "nobre" de uma cidade turística, em um bairro de casas milionárias. isso em um país em que tantos negros e mestiços continuam sendo assassinados e tratados como sub-gente (sem que ninguém saia a rua em sua defesa, vociferando palavras de ordem). no mesmo país em que um idiota publica um livro cujo título diz "não somos racistas". logo nesse país, há esse show, logo de um grupo musical vindo de um país outro, onde há uma "ditadura". sim, uso aspas e o faço por saber que esse é um termo que não nos permite olhar para aquele lugar como deveríamos. se há muitos problemas lá, há mais problemas aqui. que importa, no fim, é tentarmos nos entender através do diálogo , das nossas contradições e de suas riquezas. dentro, claro, daquilo que chamamos democracia.

queria cantar sobre o gesto de omara portuondo me dizendo "no llores, niño". mas queria, também, cantar sobre o mar de jurerê internacional, e sobrepor ainda a imagem das meninas lindas em vestidos caros ignorando algumas das belezas apresentadas no palco enquanto tomavam veuve clicquot em um camarote. queria poder explicar minhas razões, minhas lágrimas, meu sentimentos, dizer que omara me deixa profundamente emocionado e que havia, sim, muita gente interessada em cada nota, cada levada, cada passo de dança daquele grupo. 

mas que fique claro, esse texto é sobre a diáspora. é sobre como milhares de pessoas negras foram trazidas em barcos fétidos e escravizadas no nosso continente. é sobre o fato de que muitos de nós, talvez você (quem sabe?!), não entendem porque esse é um assunto importante. a despeito do que pensam uns, eu sou, sim, orgulhosamente, na medida em que devemos nos orgulhar do que somos, um mestiço brasileiro. minha canção é sobre minha avó materna, filha de uma índia e de um negro. minha canção é sobre como essa gente sofreu, penou e continuou sorrindo. sobre como produziram samba, choro, reggae, son, rap, rock, funk, tamborzão, jazz, cumbia, etc, e ainda foram capazes de, com suas mãos calejadas, erguer os edifícios em que moramos, colher a cana que adoça nossa vida ou limpar a mesma casa que pergunta que horas ela volta?. assim como os negros, mestiços e brancos daquela pequena ilha, cuba, e dessa outra, florianópolis, quis fazer uma canção que fosse "dançante, dissonante, quase triste e delicada"...

eu quis fazer essa música sobre mim e sobre você. quis falar da diferença, mas, sobretudo, do que temos em comum, a despeito da indiferença em nosso dia-a-dia. minha canção é também sobre minha filha loira e sobre os olhos azuis da minha avó paterna. minha canção é sobre um desejo, de que tenhamos um novo ciclo depois de todo o turbilhão. se o nosso entorno for brutal, façamos como fizeram aqueles homens, mulheres, crianças, que foram trazidos para cá contra a sua vontade e que, a despeito de tanta dor, nos proporcionaram e nos proporcionam tantas alegrias. façamos música. façamos (com) amor!


terça-feira, 17 de novembro de 2015

só sejamos francos, não percamos tempo:

meu texto sobre  o prêmio da música de santa catarina foi repostado pelo site do diário catarinense (a publicação original está nas minúsculas, logo abaixo, e a segunda versão pode ser lida neste link). por conta disso tem havido, lá no feyçybuque (nosso(?!) palco diário de discussões), algumas conversas em torno de questões do projeto, que amanhã terá sua grande noite no teatro do cic. porém, que importa não é quem concorda com meus argumentos ou porque discorda deles, mas, sim, o que podemos construir através desta pauta. o fato da minha fala ter sido publicada em um dos veículos do maior grupo de comunicação do sul do país, trouxe (novamente) à tona um outro debate... 

geraldo borges, importante produtor, músico e agente (agregador) da cadeia produtiva da música na cidade e no estado, apontou o dedo para a ferida, lançou questões em torno da (TEMPESTUOSA) relação entre rbs & artistas daqui. não é de hoje que, principalmente na área da música, esta é uma relação difícil. eu mesmo já vivi situações difíceis, para além daquela que há alguns anos publiquei aqui - mas não quero voltar às minhas histórias agora, quero apontar novos caminhos possíveis. 

ao citar as rádios atlântida e itapema e nos lembrar que a música produzida em sc há anos está fora da programação destes veículos, geraldo diz algo pertinente (leia aqui), mas há muitas outras questões que deveriam se somar ao tentarmos entender os porquês da atual situação. dentre elas estão duas grandes mazelas, uma brasileira e outra local: 01) jabá (hoje atendendo por nomes menos feios, como "verba de divulgação", é procedimento comum entre rádios, gravadoras e artistas), 02) provincianismo (quem me conhece sabe que uso recorrentemente o termo, por escrito ou ao vivo...). 

quanto ao primeiro item, embora não queira expor ninguém, não serei hipócrita em negar que existe ou fingir que não orienta parcela significativa do que chamamos $uce$$o. em florianópolis, santa catarina (estado de excelência de cu é rola!!!), a coisa não é diferente. somos tão corruptos quanto tantos outros lugares da nação. políticos, radialistas e produtores daqui, em sua maioria, não são exceção. não é preciso lembrar que esse tipo de coisa ainda acontece, que bandas locais são convidadas a comprarem caros presentes para serem sorteados por rádios, nem que muitos artistas acham que isso é "normal" e que pensam que quando alguém discorda ou crítica o faz por "inveja". pior é saber disso em um tempo como o nosso, em que esse veículo (o rádio) tem cada vez menos audiência.

mas quero falar do provincianismo e de como ele nos faz mal. a itapema fm negou, ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, espaço à gente tão talentosa quanto tatiana cobbett & marco oliva, silvio mansani, ana paula da silva, samambaia sound club, caraudácia e muitos outros. ouvi, anos atrás, que discos daqui não tinham "qualidade" para rodar ao lado de cassia eller ou lenine. acontece que, com o tempo, a produção local superou problemas técnicos (de mixagem, de masterização). contraditoriamente, artistas, iniciantes ou não, dos mais diferentes lugares tiveram, no mesmo período, sua música apresentada na rádio, a despeito de terem alguns dos problemas citados acima. POR QUÊ?! (espero que apenas por) provincianismo. 

falemos, então, de como uma música minha em parceria com luiz meira, essa, esteve na programação de uma rádio de buenos aires e de como aqui, preferiu-se apresentar outra do mesmo disco. essa, que tem zeca baleiro dividindo os vocais com o "músico local". mais exemplo?! tivemos tijuquera entre os mais executadas na oi fm do rio de janeiro, enquanto em sua terra... mais?! que tal emília carmona ter entrado na programação através de uma gravação do grupo novaiorquino wax poetic?! mérito para ela? sim. todavia, pergunto: há ou não há provincianismo nessas escolhas?! será que todas as faixas do disco que lancei com felipe melo este ano estão tão fora do padrão itapema de qualidade?! o que é preciso para impressionar pedro leite?! se este senhor é apresentado sempre como pesquisador e conhecedor da música popular contemporânea, por que ignora o que está ao seu redor?! seríamos tão ruins assim?! 

cito o radialista, mas quero aproveitar para esclarecer que me desgostaria que meu texto, mais uma vez, fosse lido como outro "desabafo polêmico" de um "encrenqueiro" ou algo assim. sou alguém que quer dialogar. porém, de modo franco e com ética. que fique claro: NÃO ESTOU ATACANDO NINGUÉM, MUITO MENOS UMA GRANDE CORPORAÇÃO! até por entender que não vale o esforço. a itapema merece aplauso. ainda assim, é preciso não calar diante do que atinge trabalhos como o meu e de outros.

antes que alguém diga "ah, eles que se fodam, quem precisa de um grande grupo de mídia hoje?!", é preciso lembrar que o buraco é sempre mais embaixo. precisamos, sim, e esta não é uma via de mão única. só um idiota creria nisso. ao se omitir, rbs perde espaço. o jornal notícias do dia é exemplo, pois há algum tempo entendeu essa lógica e "rouba" público do seu concorrente. mas é preciso dizer também que existe uma concessão pública, que existem leis que garantem espaço para a produção local nestas rádios e que estas leis são veementemente ignoradas. no fim, uma mudança de atitude não faria bem apenas a "artistas desconhecidos". 

entre meados e fins da década passada, passamos por um período fértil na criação e produção de arte em florianópolis, a música acabou por ser um dos destaques daquele momento. um dos fatores que contribuíram decisivamente para isso, creio, foi o fato de alguém como dorva resende, que na época estava à frente da cobertura de cultura do diário catarinense, ter se atentado para este diálogo... 

por fim, esta discussão não pode ignorar outra perspectiva também, a crença de que um trabalho por si constrói "seu lugar" e "seu público". alexandre matias disse algo assim em um dos seus ótimos textos (leia aqui), embora concorde parcialmente com ele, sou obrigado a fazer ressalvas: aqui, no brasil, sendo este o país que é, sem uma "assessoria de imprensa", um disco, bom ou ruim, provavelmente será muitíssimo pouco ouvido. há exceções?! sim. porém, pensemos juntos, vejamos que cruel: sendo você um artista independente, precisa bancar seu a) show (que raramente dá lucro), b) seu disco (pagar estúdio, produção, mixagem, masterização), c) sua prensagem (quando é possível fazer e, ainda entender que, de modo geral, discos hoje são cartão de visitas e devem ser distribuídos gratuitamente) e d) uma assessoria... (isso sem contar a grana de divulgação do feyçy, do youtube, além de um "vídeozinho caprichado"). imaginem como a coisa pioraria se tivéssemos, como temos, o poder público não cumprindo leis que deveriam trazer novas possibilidades aos artistas e protegê-los de um cenário tão difícil... pois é. 

minha pergunta final é um convite aos que querem uma cidade melhor: será que não é possível, em pleno século XXI construir novas possibilidades, novos diálogos, novos caminhos?!