quinta-feira, 6 de outubro de 2016

"são tantas as verdades da cidade":

a entrevista chapa-branca em que o atual prefeito de "florianópx" se diz vítima de uma "elite que nunca o engoliu", publicada no diário catarinense ontem, quarta-feira (aqui), coincide com mais arrombamentos à lojas do centro (eles vem se multiplicando nos últimos meses). mesmo dia, aliás, em que o irmão de uma grande amiga foi atacado por um morador de rua, que lhe golpeou a cabeça com uma barra de ferro. 

não nos esquivemos, há sangue nas mãos destes homens públicos.

é outubro e eu já não tenho mais ilusões. a política segue seu faz de conta desenhado por uma imprensa que, salve raras exceções, não faz jornalismo, mas propaganda. todo mundo tem que pagar as contas, dirão alguns, não sem razão.

a entrevistadora não pergunta sobre o não investimento em cultura (e aqui cabe meu arrependimento por ter acreditado em um secretário de cultura que nada fez além de jogo de cena), sobre a escola de música, sobre o transporte público e seu faz de conta, sobre os escândalos na câmara de vereadores ou sobre a falta segurança no centro e suas vítimas. a entrevistadora faz coluna social. nada contra coluna social, mas, convenhamos, PORRA, que raio de jornal é esse?! 

"há muita hipocrisia nesta cidade", disse ele e destacou ela. enfim, concordamos! e me pergunto se um dia investigarão as relações do então secretário de cultura, e pré candidato à prefeitura, e o grupo que publica este jornal (saiba mais aqui).

o jovem que tinha a faca e o queijo na mão - imprensa, câmara de vereadores, governo do estado e do país ao seu lado - chega ao fim do mandato lamentando os 77% de rejeição e não admite, mas fracassou por incompetência mesmo. 

a situação é lamentável, claro. a cidade não está bem. 

agora, não sou golpista, jamais gritei, como faziam muitos colegas meus na universidade, "fora fhc", daí, por isso, embora tenha cesar souza junior como um adversário, por conta de tudo que ele representa, torci pelos seus acertos. de verdade.  

que nos próximos quatro tenhamos alguém ao menos um pouquinho menos incompetente, já que sabemos que outra vez não teremos um prefeitx que vive a cidade de verdade.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"a luta é de tudo e de todos":

o momento é complexo, tenso e triste, daí, assim sendo, é preciso sair da zona de conforto e se posicionar. nunca me senti "de esquerda", embora jamais tenho sido de direita, claro. via a esquerda como "bunda-mole" (no sentido de "careta", pouco arrojada, esquemática, com visão estética simplória), mas, em virtude do que vivemos (o golpe, a ascensão de um neo-fascismo aqui, ali, acolá), passo a me declarar de esquerda, sim. talvez eu seja de "sua ala festiva"... provavelmente. 

recentemente, se desdobrou uma polêmica de feyçybuque na cidade de florianópx: meu amigo, o cartunista frank maia, depois de assistir a uma atitude intempestiva de um dos proprietários do gato mamado (bar que tem como parte de seu público jornalistas, artistas e boêmios que, em sua maioria poderiam ser classificados como esquerdistas) contra manifestantes, ao fim de mais uma "passeata fora temer", isso durante um confronto com a polícia nas imediações do estabelecimento, escreveu que não voltaria àquele local. fez bem?! suponho que sim.

conheço os sócios que conduzem o gato. simpatizo com ambos e não preciso concordar com o que pensam sobre política, isso nem viria ao caso em outros momentos, mas hoje, feliz ou infelizmente, não é algo a se desconsiderar. porém, todavia, entretanto, depois de ter curtido a postagem de meu amigo e de ter lido a espécie de pedido de desculpas da casa, repensei. achei que deveria, sim, voltar lá. gosto do bar, mas minha mudança tem menos a ver com o que escrevi acima e mais com minha personalidade. sou alguém que aprecia e quer, ou ao menos procura, a conciliação. talvez tenha um espírito gregário ou algo assim, não sei, mas não gostaria de deixar de conversar com ninguém por conta de questões políticas... 

por uma coincidência, cito o gato mamado na letra de uma canção que gravei ano passado, uma que tinha como cenário uma manifestação de rua e essa divisão entre nós brasileiros, algo que vivemos mais vividamente desde 2014. para quem quiser ouvir, essa premonitória milonga, cá está "eu sei, você sabe" (em arranjo pseudo-progressivo). 

ainda sobre se posicionar: na mesma rede social resolvi, há uns dias, questionar publicamente alguns amigos candidatos sobre o golpe... todos saíram do armário e condenaram o que se desdobrou. mas um deles, em conversa posterior (particular), ponderou que não podia "levantar essa bandeira" tão "escancaradamente", afinal, isso poderia ser ruim para sua campanha. realmente, esse é um assunto complexo. minha atitude primeira foi calar e concordar. mas depois, refletindo sobre sua posição, e sobre um exemplo por ele dado, de que se lula em 2002 não tivesse contornado certos temas polêmicos, provavelmente não teria sido eleito, cheguei a seguinte conclusão: 2016 não é 2002 e aquela postura, daquele candidato, lá naquele longínquo pleito, provavelmente contribuiu para toda a confusão que vivemos. AGORA É A HORA! é preciso não temer!

dito isso, trago para cá um texto de 2006. um release/poético escrito por mim para divulgar o coletivo CLUBE DA LUTA FLORIPA, que é lembrado em exposição fotográfica multimídia organizada por e com fotos de cassiano ferraz. a abertura é hoje, no museu da imagem e do som de sc. se minha fala pode parecer velha, acredito que sua reflexão vale para ontem e amanhã. redigo isso feliz em encontrar certa coerência nos temas e no estilo. por isso esse post agora: pois eu sou a cidade e a cidade é você. esse não é um momento para se omitir (aliás, quem se omite também toma posição, pois o silêncio também fala). RÁ:

para acabar com o tédio: clube da luta

para quem não sabe: clube da luta é e será. pule dentro! para estar no clube da luta é preciso ir até o clube da luta. e o clube da luta estará em baixo da ponte velha em florianópolis. é claro que ela pode cair. a ponte é velha, mas o clube é novo. e a luta? a luta é a mesma de sempre. mas é sempre diferente. e é e será, além de diversa, divertida. ou não. o que importa é que não se pode ignorar o clube da luta

as primeiras lutas, espécie de demarcação de território por seus participantes, acontecerão dias 01 e 02 de setembro. o custo é mínimo. o prazer, em compensação, será incomensurável! o clube da luta não convida. o clube da luta convoca. pule dentro. 

o clube tem regras. só haverá luta se suas regras forem respeitadas! o clube e a luta são para a cidade e para quem vive na e da cidade. a cidade dá, mas a cidade pede: lute! 

(...) a luta é de tudo e de todos e por isso é preciso lutar. pois a luta e seus lutadores são plurais como plural é a cidade, que recebe e acolhe, mas devolve tudo. e exige: lute!

(ah, a foto lá de cima é do querido bruno ropelato)

domingo, 4 de setembro de 2016

conta comigo:

lá ia eu, noite adentro naquele ônibus sob um céu sem estrelas, ao lado de uma desconhecida e seu ronco. em mim, a tentativa de juntar nomes, fatos, datas e canções em meu quebra-cabeça particular. ia com uma espécie de aperto gelado entre a barriga e o peito. difícil descrever minha angústia sem usar algum clichê... meu domingo ia tranquilo quando recebi a notícia que me arrasaria. 

em minhas memórias eu era outro, diferente do que sou: era um menino de 13 anos. no agora sou um homem de quase 40 que anda triste com o que o rodeia. vivo em um país à beira do colapso com cidadãos furiosos, engendrados em uma teia de ódio & oportunismos & meias verdades. mas quem era eu dentro daquele ônibus? o menino de 1990/91 ou o homem de agora? tenho duas filhas, faço canções doídas e as canto para poucos. dentro de mim, em minha poltrona, através da janela, eu era a soma do que fui, do que sou e do meu entorno nos dois períodos. 

em uma outra noite fria, isso há 25 anos, assisti pela primeira vez "conta comigo" (stand by me, rob reiner, 1986). aquele filme, que emocionou o menino que eu era, me deixou aos frangalhos semanas após essa viagem de despedida. pois assim como naquela história, tive também um amigo aos 12 anos, alguém que me acompanharia pela vida. com ele dividi alegrias, tristezas, conquistas e paixões ao longo de mais de duas décadas. como no cinema, esse meu companheiro de aventuras também morreu de forma estúpida.

no fim do último verão, 13 de março, no domingo em que muitos brasileiros foram às ruas (isso antes dos desdobramentos trágicos que agora vivemos), lá ia eu tentando organizar as notícias em minha cabeça. naquela noite estranhamente gelada...

estamos quase na primavera e logo se completarão 6 meses da sua ida. desde então penso em meu amigo todos os dias. nele, em sua companheira e seus filhos. natural que inclua nesse pacote "minhas meninas" e que compare as realidades de hoje e da época em que lhe conheci. são brasis parecidos. como se não tivesse havido, ao longo deste tempo, momentos distintos, com perspectivas melhores. 


nos primeiros anos da década de 1990 vivíamos num país desesperançado. talvez alguns não lembrem. é possível que outros não saibam. mas o plano collor e o que ele desencadeou (você assistiu terra estrangeira?) foi ainda pior do que o temos agora. eu e minha família, vindos do pará pouco antes, não fomos exceção. havia gente, claro, em piores condições. durante dois invernos rigorosos, só tivemos agasalhos o suficiente por conta da ajuda de alguns. não tínhamos fogão à lenha (algo quase imprescindível em residências do interior de sc), muito menos máquina de lavar roupa (pense nas mãos da minha mãe em sua dupla jornada). não passamos fome, mas nenhum de nós engordou naqueles anos... a vida era difícil e chapecó era uma cidade dura pro garoto que fui: magro, feminino/delicado e comunicativo. quando digo que durante uns dois meses apanhei praticamente todos os dias, entenda, não digo metaforicamente.

éramos muito jovens, não entendíamos direito... hoje, olhando pra trás, entendo que vivemos coisas desproporcionalmente cruéis.

alisson era tímido e um ano mais novo que eu. poderia ser descrito como minha antítese. personalidades complementares?! provavelmente. mas isso importa menos que entender que vivemos juntos um momento definidor. em comum, dentre outras coisas, tínhamos o amor pela música (que nos servia de passagem para dimensões menos melancólicas que a realidade) e pelo futebol (algo muito daquela idade, naquele lugar), o alcoolismo (destruindo pessoas próximas e as relações dentro das nossas casas) e a falta de dinheiro (nos fazendo trabalhar cedo). 


para além dos dois anos que vivi ali, foi no período em que me preparava para vir para florianópolis e nos meses iniciais por cá, que nossos laços se transformaram. nossas famílias (ou o que restava delas), muito por conta dessa amizade, se aproximaram e aquele carinho, mesmo após o distanciamento natural da vida, continuou. ao longo de dez anos nossa comunicação ainda que por cartas permitiu mantermos-nos próximos. tenho comigo a maior parte destes registros, mas não a coragem para as reler. não agora. o ponto é que torcemos um pelo outro e dividimos nossas dores e perdas, etc. este "etc" importa muito em meu relato pois ele inclui um dos nossos combustíveis: música. ele, orgulhoso, me enviou uma fita da banda repolho, e eu lhe comprei a edição da revista general que trazia uma coletânea com radiohead, blur, breeders e outros. "xerocava" matérias sobre discos e lhe enviava. ele, às vezes, quando queria algo que não chegava à sua cidade, escondia dinheiro dentro da caixinha de uma fita (para que ninguém dos correios lhe "surrupiasse") e me pedia para lhe comprar/enviar. 

quem hoje tem acesso a tudo através de um clique, não imagina o que era esperar meses ou anos para ouvir, após muitas elucubrações, o som daquele nome que se havia ouvido falar ou lido a respeito. foi assim com doors, depeche mode, cure, smiths, jesus & mary chain, pearl jam, prefab sprout, fito paezmarisa monte, chico science & nação zumbi, chico buarque, pato fu e outros.

se foi triste para mim esse retorno, dentro daquele ônibus, nada se compara a dor de um pai que perdeu o filho, de uma mulher encarando seu amor sem vida, da irmã que teve que ir escolher o caixão ou das crianças se despedindo do pai. eu estava lá e jamais esquecerei o que vi. 

após sua ida, vivi um período em que estive bastante sensível. foi difícil pra mim. talvez tenha sido necessário, não importa. importa que hoje, a despeito do momento conturbado, tenho mais esperança do que tinha em março, por exemplo. 

mesmo distantes, mantivemos os laços ao longo de 26 anos. nos vimos muitas vezes, mas não tanto quanto deveríamos, eu sei. sei também que devo muito a essa amizade e em sua homenagem tenho muito o que criar. não para ele, mas pelo que acreditávamos, pelo que nos tornamos. tivemos filhos e são eles que nos fazem seguir e querer construir uma realidade melhor do que a nossa. que eles possam, aos 12 anos ou não, ter amizades como a que tivemos... que eles possam, como eu, ter alguém com quem contar.

(ironicamente, fiz a foto lá de cima pouco depois do enterro de meu amigo, vítima de uma dengue hemorrágica mal diagnosticada) 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

o brasil, a cidade, o samba e essas mulheres:


florianópolis, fins de agosto de 2016: pesquisa aponta angela amin como primeira na "corrida para a prefeitura", seguida de perto por gean loreiro. dois vassalos dos de sempre. ambos em partidos golpistas de agora e antes (sim, o pmdb é, ao contrário do que costuma pintar, fruto do faz de conta que chamava de revolução um golpe, a tática foi e é negar o inegável). aqui não é diferente de outras capitais e interiores do brasil brasileiro, in-fe-liz-men-te. fins de agosto e há gente na rua contra o governo interino-golpista, mas há mais ainda, como sempre. há muita gente por aí tentando ganhar algum, pois a crise é brava e não dá arrego. semana passada vi alguns destes perdendo seus produtos, cercados pela polícia e fiscalização. havia uma senhora chorando e pedindo para que não lhe tirassem o "ganha pão". ela, como vários outros dos que se viam cercados, era imigrante. essa é a nossa cidade hoje. esse é o nosso país. 

noite de domingo, rancho do neco cheio. lugar simples e muita energia e gentileza. no palco: luiz sebastião e seu violão sete cordas comandam a festa. entre seus convidados há a cantora bárbara damásio, o músico-candidato luiz meira, camélia martins, eu e gazu (ex-vocalista do dazaranha). na platéia, gentes de todos os tipos e procedências, idades, sexualidades, cores, etc. os sambas se sucedem e são cantados por todos, há alegria e eletricidade no ar. do palco, puxo o coro "fora temer" e quase todo mundo entra no jogo. ali, no meio daquela gente ou fumando um cigarro na rua, sinto esperança. esse é o nosso país/cidade agora?! 

hoje, segunda, 29 de agosto de 2016, temos uma mulher eleita democraticamente sendo julgada por um crime que não cometeu, por quem, como sabemos, não tem "moral" para fazê-lo. 

angela amin foi prefeita em época mais ou menos recente, mais ou menos melancólica. seu marido era governador (eram reizinho e rainhete de sc) e fhc presidente. vivíamos desemprego e desesperança, mas tínhamos grande mídia e elite aparentemente satisfeitos. aqui, nessa província, muito por conta do desastre dos equívocos da gestão dela no transporte público, vimos surgir o movimento passe livre. aqui surgiu o "quem não pula quer tarifa". eram outros tempos. piores em vários aspectos. não me lembro tão bem da desastrosa inauguração dos novos terminais, sei que alguns hoje estão abandonados, sei também que a falta de planejamento gerou tragédia na vida de alguns. mas não sei precisar se entre os atropelamentos houve algum fatal. sim? não?! essa foi a nossa cidade ontem, esse era nosso país em tempos de cronicamente inviável

essa senhora, primeira nas pesquisa, tinha contra si denúncias, todavia, ao seu lado esteve/está, o mesmo tipo de gente que hoje julga dilma. são brasis e momentos e cidades e julgamentos distintos. claro... e a mulher chorando na rua, cercada por polícia e fiscalização estaria em qual destes momentos-brasis-cidades? 

fim de festa, conversa animada em frente ao rancho de pescadores: somos músicos, artistas e outros, gente que lê, que é crítica e que anda desesperançada. entre os amigos, há o uruguaio daniel e o congolês gloire e o papo gira em torno de imperialismo, ritmos ancestrais e o momento atual aqui e no mundo. ninguém fala em golpe, em retrocesso ou em eleições municipais. não porque não saibamos o que há, mas por entendermos que é melhor seguir e lutar, a despeito do que infelizmente pode vir. intuo, a partir do papo, da noite, das pesquisas, das notícias de hoje, que ainda que o que se desenhe em nosso horizonte seja triste, nós não seremos. mas essa será a cidade e o país amanhã?! não sei. todavia, seguirei cantando o refrão do samba: "amanhã vai ser outro dia/ amanhã vai ser outro dia"...

segunda-feira, 23 de maio de 2016

vivendo num país sedento:

no diálogo do romero jucá com o sérgio machado, há citações a aécio, serra e gilmar mendes... na entrevista dada por sônia braga para divulgar o filme aquarius, ela (que mora nos u.s.a.'s) fala de "orgulho/vergonha" de ser brasileira. em entrevista recente, dilma escancara: a grande mídia brasileira lhe quer fora do poder.

receberemos uma olimpíada, algo antes inimaginável para a minha geração! vivemos um golpe, algo igualmente impensável há alguns anos (não?!). nosso potencial como nação não deveria ser questionado, penso. curioso que a maioria de nós tenha esquecido (esqueceu?!) que até 2012 vivíamos um período em que era possível sentir orgulho da virada brasileira... (sim, eu ainda tenho orgulho)

obviamente que existem fatores externos que contribuíram para atual crise. não se nega também os equívocos do governo dilma, ok?! o que espanta, no entanto, é ver como as pessoas se fiam por uma imprensa vendida, que tem vergonha do nosso país/povo (somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter) e defende os interesses de uma minoria nociva (temers, marinhos, neves, alckmins...). 

talvez eu seja romântico, e é possível que não dê em nada o vazamento de hoje, mas deveria fazer explodir uma revolta popular (nem que fosse dentro de nós).



domingo, 3 de abril de 2016

ânimo novo:

transito em transe e
em meu atraso trago:

traje de banho
ânimo novo
ovo em conserva
erva da boa
e o que me soa
música
vida
densa, dura, trágica
e o que nos resta além da festa?!


(eu sou do tipo que faz comício 
e tem horror a compromisso)

segunda-feira, 28 de março de 2016

eu vivo o feio e o belo:

não tenho tido medo de expor minhas dores. aceitar o fato é dizer também que o que me motiva não é o holofote, mas o querer estar inteiro e "sem maquiagem". é fugir do lugar mais cômodo... em 2015, atravessei um período difícil (coisas do mundo, minha nega). o pouco dinheiro, a falta de perspectivas (pessoais e artísticas) y otras cositas más quase me asfixiaram. fiz uma pausa e desde então me sinto no ar. poucos planos, quase nenhuma direção. foi difícil e triste, sim. vivi ainda a infeliz coincidência do falecimento de amigos naqueles dias. mas o tempo cicatriza e o tal sentimento, "de estar no ar", me fez bem. todavia, o vento começou a mudar a partir de fins de novembro passado, quando eu e andré seben nos sentamos no chão da loja pulp (em um antigo casarão no centro da nossa cidade) e criamos rush de amor à ilha.

meu orgulho não se resume ao resultado dessa empreitada, se estende ao que me foi trazido no seu processo de construção: confiança. de lá para cá fiz outros trabalhos (na pulp, inclusive) e compus e compus. mais: repensei músicas que tenho guardadas em minhas "gavetas" há anos (eu hoje joguei tanta coisa fora / vi o meu passado passar por mim) e tenho tentando colocar novas ideias em prática. pouco fiz sozinho, pois entendi que sou melhor com interlocutores. 

dentre meus parceiros desde então, cito, além de mr. seben, luís canela, thiago gomes, cícero bordignon, ulysses dutra, márcio costa, bárbara damásio, yoyo borobia e bruno ropelato. cada qual por um motivo, todos com igual importância. há mais por vir, existem planos e "canções engatilhadas". mas não há pressa. o que me faz crer que estar no ar pode não ser ruim.

continuo fazendo música, ao menos por enquanto, pois entendi que assim respiro melhor. entendi que sou parte do meu entorno e que sou também "desterra destruída em reconstrução". sou vítima e sou algoz (a cidade é parte de mim). sou mais do que supunha e se estou mais forte a cada nova queda, é por entender que é possível fazer do amanhã algo melhor do que o que antevemos agora. aqui, "num pedacinho de terra", ou por aí, pelo continente multicolorido que chamamos brasil - com suas dores, holofotes, maquiagens.

e para quem não assistiu ou não ouviu: RUSH DE AMOR À ILHA:

(foto e vídeo: bruno ropelato)

sexta-feira, 18 de março de 2016

de domingo para cá:

no domingo em que muitos brasileiros foram às ruas protestar, passei parte do dia em um almoço em que comemoramos o aniversário do filho de um casal de amigos. aliás, nosso afilhado, meu e da mulher com que divido a vida. tínhamos a companhia de duas meninas, a nossa e a filha dos nossos convidados. o dia transcorreu tranquilo. embora não tenhamos evitado as notícias do brasil...

no fim de tarde soube da tragédia: a morte de outro grande amigo. peguei o primeiro ônibus que pude, segui pro oeste de santa catarina. em minha cabeça, noite adentro, se embaralharam o nosso momento tenso e as lembranças do que escrevi em uma das cartas que trocamos em 1992, o "ano dos caras pintadas". a situação hoje é outra, as pessoas nas ruas e sua indignação são diferentes. ainda assim, não por coincidência, alimentando "o movimento", há novamente a poderosa rede globo

na noite de ontem, o amigo com quem almoçamos domingo, foi agredido. do seu carro, parado em um semáforo, levou um soco por se negar a se juntar aos manifestantes. eu e ele sabemos que a grande mídia brasileira está entre os principais responsáveis pelo clima violento. a derrocada da economia se deve não apenas aos equívocos do governo. existem, claro, interesses maiores, que unem poderosas corporações. obviamente, o cidadão médio, que lê pouco e vê muita tv, não sabe disso, é levado pelo que lhes apresentam e, assim, ajuda a afundar o país. o pt, a presidenta e outros dos protagonistas dos escândalos nos jornais, têm, sim, sua responsabilidade e merecem ser investigados. se de fato houver provas, precisam pagar pelo que "devem". todavia, como confiar na justiça e na imprensa que temos?! só sendo muito ingênuo ou agindo por interesses particulares... 

não sei em que acreditava meu amigo morto. tínhamos personalidades distintas. mas isso nunca foi problema para nós. nos entendíamos e nos admirávamos por nossas diferenças. que importa se ele defendesse esse ou aquele partido, se julgasse o que nos rodeia com tranquilidade ou não?! não lhe deixaria de amar. poderia ficar magoado ou decepcionado, sim, como estou com outros (gente da minha família, parceiros da música e conhecidos), mas jamais deixaria de querer bem alguém com quem dividi momentos que ajudaram a fazer de mim quem sou. 

o desentendimento geral, entre amigos ou familiares, faz parte do quebra cabeça que tento montar por esses dias. imagino meu tio evangélico defendendo o pastor homofóbico ou o amigo músico que odeia o pt e se faz de neutro, mas vibra com as notícias ruins. ora, se eu, que leio há anos sobre política e história, que me interesso e tento aprofundar questões, me sinto confuso, como querer julgar os que, tristemente, defendem ideias alheias com intransigência!? muitos, amparados em informações parciais, emitem opiniões veementes. a maioria compra as "certezas" vendidas pela imprensa financiada por quem quer derrubar qualquer governo que não lhe sirva mais. 

venho evitando essas questões. estive mais dentro do debate e já quis me manter alheio também. vivemos, infelizmente, um momento em que é difícil apartado do que há. daí, estar em trânsito por santa catarina, madrugada a dentro, me fez pensar se teria sido meu amigo, afinal, vítima da incompetência do governo daqui. tendo sido o primeiro caso fatal de dengue hemorrágica da sua região, após equívocos em seu diagnóstico, haveria como ter salvado sua vida?! a quem deveríamos responsabilizar pelo fato dele ter sido deixado por 2 horas sem atendimento em um corredor de hospital?! como não se indignar com a morte de alguém de 37 anos!? estranhamente, não se vê manifestações contra um governo como o de sc, que trai professores, maquia números da saúde e que segue desrespeitando a classe artística... 

no fim, tudo é ideologia (como nos ensina a análise do discurso), tanto o marketing do empreendedorismo ou a militância dos que defendem o pt com ardor são frutos de opções ideológicas. lamenta-se, sim que as pessoas tomem partido sem entender que são "massa de manobra" (note, não estou falando de direita ou esquerda, mas da falta de autonomia da maioria). 

a situação é complexa, claro, mas tem sido muito difícil ignorar o "motor" por trás da indignação seletiva. afinal, o “big brother” está entre nós... entre a quarta e quinta-feira, quando passei pouco mais de 24 horas em um hospital, acompanhando a mulher que amo em uma cirurgia, vi a força da mais poderosa emissora de tv do brasil: nos quartos, nos corredores, na enfermaria, no restaurante, na sala de espera, nas lanchonetes na rua (em frente ao enorme prédio), as telas todas se conectavam ao mesmíssimo canal. o reality show que colocou o personagem do livro 1984 no imaginário geral, omite o que ele tem de terrível e cruel. a maioria não faz ideia da ironia por trás disso. na história de george orwell o sexo é crime. no mundo em que vivemos hoje, o amor e a amizade são antídotos. precisamos não calar diante do ódio. 

foi uma semana de emoções. tenho chorado muito nos últimos dias. ando dolorido, mas acredito que é possível superar o que estamos vivendo com diálogo. eu e meu amigo de infância, aprendemos muito um com o outro, justamente por sermos diferentes. tenho muito orgulho dele e da amizade que construímos ao longo de 26 anos. por isso entendo que agora é hora de conversarmos uns com os outros. afinal, não será possível fazê-lo com a tv/"big brother".

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

"quem me dera agradar você":

em 2001 um grupo de compositores se reuniu por 3 ou 4 vezes, talvez 5. isso foi em florianópolis. e a coisa se desencadeou a partir do 2º festival de música do sesc. o objetivo não era muito claro, mas se acreditava que dali sairia um espetáculo com canções destes artistas. nada foi pra frente. 

aquela gente continuou fazendo música nos anos seguintes. luís canela, silvio mansani, jean mafra (eu), samuel góes, neno miranda, tatiana cobbett, marcoliva e emílio pagotto. esse último cedeu a casa e propôs os encontros. outros músicos também se juntaram ao grupo em alguma das ocasiões (aliás, já não sei precisar se tatiana e marcoliva realmente estiveram junto aos citados acima). emílio era mais velho que a maioria e costumava pedir para os artistas apresentarem músicas suas. sua estratégia, professoral, era fazer o autor ouvir (além de palmas) palpites: elogios e críticas que (embora alguns discordassem) enriquecia suas criações (tenho a impressão que fui o maior beneficiado...). 

essa iniciativa juntou gente que ajudaria a movimentar o cenário musical da cidade. lá se vão 15 anos. pouca coisa mudou, mas tudo está diferente. 

jean mafra e luís canela se apresentam nesta quinta-feira no café dos artistas. o show (saiba mais aqui), simples, direto e ainda em construção, rememora, em parte, esses artistas e aqueles encontros (e tem músicas de alguns dos citados no repertório). ainda assim, a ideia é não ser nostálgico, haverá canções inéditas e releituras. 

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EMÍLIO PAGOTTO, além de professor de linguística, produziu com canela o show cumbuca de camelô, compôs um musical (paraíba woman) que foi encenado por paulo vasilescu e criou com silvio mansani um álbum com canções infantis (no dorso do rinoceronte).

LUÍS CANELA, depois do show com pagotto, (dentre outras coisas) lançou disco solo, se juntou a silvio mansani no show-projeto infantil (que gerou mais um álbum) e ao grupo FELIXFÔNICA (com quem tem dois discos gravados, sendo um inédito). 

SILVIO MANSANI gravou três discos solo, compôs com alguns importantes nomes da cena de música popular do brasil e segue produzindo novo trabalho.

TATIANA COBBETT e MARCOLIVA continuam criando juntos, já tem 4 álbuns no currículo, além de variadas parcerias e muitos shows mundo afora... (é preciso dizer que tatiana vez ou outra ainda promove encontros como aqueles).

NENO MIRANDA, que teve canções suas gravadas por outros artistas da cidade, continua compondo e fazendo shows e gravou disco solo há alguns anos.

SAMUEL GÓES é hoje um respeitado professor e, até onde sei, continua compondo (eu mesmo gravei uma canção sua - ESSA).

JEAN MAFRA (sim, eu) fez parte da SAMAMBAIA SOUND CLUB e do BONDE VERTIGEM, gravou trabalhos sozinho e em parceria com outros músicos.

(*o título deste post foi tirado da letra desta canção, que ganhou a etapa florianópolis daquele festival de música)